de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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20.10.10

: (ou - "o que é seguir"?)

continuação daquela vírgula do começo do ano: culminei em dois pontos, agora.
ou: será que é uma culminância, se continuo?

hoje foi minha prova de aula, falei de clarice. fiz muita coisa com um cuidado muito maior que tinha outrora, pareceu até que eu era uma pessoa organizada, com planos de aula, idas ao quadro, handouts, celular avisando de 5 em 5 minutos pra eu não me perder no tempo. não foi dito tudo. tudo muito bem, porque "todas as coisas do mundo não cabem numa idéia. Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo".

reconsidero algumas coisas: meu voto, que talvez fosse nulo e agora vai pra dilma; meu ex-voto de "nunca vou dar aula, não nasci pra isso". é tudo uma aprendizagem mesmo, só para quando a gente morre. de modo que essa coisa cresceu na minha concepção, a coisa do magistério, e também cresceu, com muito trabalho e auto-disciplina (ainda minada e sabotada, mas tô melhorando), minha auto-confiança pra dar aula. só de ver os sorrisos daquelas pessoas... parecia, por um momento, que todos nós tínhamos mesmo que estar ali: que desfrutávamos. e é isso que tinha falado no último post - se até ali não tinha me apropriado do magistério, me vendo naquela profissão, hoje, em fulgurações epifânicas, tive momentos felizes. seria feliz fazendo isso, gosto mesmo e é bom fazer o que se gosta, pronto. saber que os outros gostam do resultado daquilo que você faz e gosta também é bom.

pra não sucumbir ao pânico nervosismo, antes, fiz tudo devagar e organizei o quarto, e respirei, e saí, vi as coisas, as pessoas, vivi no presente (como não vivo agora); pensei que não queria ficar elocubrando e sim prestar atenção às coisas que aconteciam ao redor. foi muito presentificante.

no depois da aula, ainda no mesmo processo voltei pra casa, aí vi: "os fios do urucúia". acho que se não tivesse presente o dia inteiro, nunca teria prestado atenção àquela exposição que estava no meio do caminho. como ela deve ter estado há vários dias no meio do caminho e só hoje vi. conhecendo a palavra por causa dos sertões roseanos, senti uma palpitação: que lindo, o sertão veio pra beira do mar! se a montanha não vai ao sertão, o sertão vai à montanha! e veio. é claro que eu ia encontrar uma citação de rosa: encontrei. "o sertão é dentro da gente". e hoje ia sair com a camisa com outra citação: "pão ou pães é questão de opiniães". mas sujei de feijão, no almoço. feijão ou feijães, deixei em casa, troquei, mas rosa me encontrou depois!

2.2.10

as férias me deixam um pouco alentada, posso ver tudo quanto é manifestação cultural que acabo perdendo durante o semestre. o problema é que, na mistura, vejo muita coisa ruim. tenho ido ao cinema quase toda vez que me convidam, pra ver qualquer coisa. mas ando me controlando, porque senão gasto dinheiro demais com muita porcaria. ó, um exemplo do aproveitamento das minhas férias cariocas:

macbeth

não sei se é porque eu fui no domingo de estreia, logo depois de bárbara heliodora soltar os vikings em cima da peça, falando mal de tudo, mas achei bem ruim. lembro que jun e branco foram ao ensaio aberto, e disseram o mesmo. tava achando que a culpa era do daniel dantas, com aquela cara de cu (perdão pelo meu francês) que ele tem - a articulação é pior ainda com aquela barba (tá certo, sir macbeth tem barba, é todo um recurso pra mostrar autoridade, respeito e sabedoria, mas ela não pode impedir os atores de entoar as falas). se daniel dantas é ruim não obstante seus anos a fio estudando shakespeare, a culpa é mesmo do aderbal freitas-filho que, aparentemente, não sabe dirigir atores fazendo peças do bardo. foi a mesma coisa com hamlet, que ficou um capitão nascimento histérico, e não um homem atormentado.

não é por ter feito women's studies, não, mas a grande diva da peça é lady macbeth, que fica apagadinha, apagadinha, na loucura. quando a renata sorrah podia ter soltado aquela "loka, destrambelhada" que a gente AMA, estilo heleninha roitmann e nazaré, ela fica boba, meio suave demais, parecendo que o marido dela é que arquiteta tudo e é o mauzão desde o início. aliás, é outra coisa que não dá pra ver: não tem cenas suficientes dela tentando convencer o marido - que é relutante - a praticar o assassinato. parece que ele é que enlouqueceu e não tem um pingo de culpa: é sanguinário e cusparento e ela fica vagando pela casa, sumindo mais rápido que devia. enfim, uma peça sem PRESENÇA.

e não é por ter feito women's studies, não, mas um dia eu vou escrever um ensaio sobre essas mulheres de shakespeare! elas não existem! são elas que fazem tudo, principalmente por serem umas loucas! desdêmona, ofélia, julieta, lady macbeth, a rainha titânia... eta nós! é daí que o machado tira aqueles olhos de ressaca, oblíquos, dissimulados, das heroínas dele... essas mentes perigosas, que arquitetam tudo, manipulam tudo... que delícia! (muhahahahahaw)

cirque du soleil


não tinha gostado quando fui em winnipeg ver delirium, em parte porque não tinha tomado ácido antes, e também porque meus assentos eram muito longe. num estádio não dá pra ter a dimensão de que aquilo é um circo. achei tudo uma palhaçada (sem palhaço), com umas músicas bregas a beça... mas foi só montarem um circo com estrutura de circo mesmo, na marina da glória, com o público pertinho do palco, pipoca, algodão-doce, que me botaram chorando antes mesmo de o espetáculo começar.
Domingo a minha vida é o circo
Eu sou a trapezista
Alguém avise à dor
Que não insista
gente, por isso não pode perder quando o cirque estiver aí! deixem de ir ao show do coldplay, cujo ingresso mais barato custa o mesmo do mais caro do cirque, e vão lá! vai valer a pena!