de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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1.11.15

de filhos e poetas.

portugal é o país dos poetas mesmo.

eu já não vejo tevê e nem consigo entender completamente o sistema político daqui. mas ligo-a mesmo assim e vejo um sósia de um poeta famoso de quem não sou nada íntima. é o filho do famoso, sendo que o famoso nunca apareceu na televisão e existem uma ou duas fotografias dele, só. o poeta famoso foi famoso por não dar entrevistas. enfim.

já o filho do poeta famoso aparece na televisão, é jornalista, faz comentários políticos e ainda diz a expressão brasileira "ajoelhou, tem que rezar" (será essa uma expressão que reflete a cultura do estupro?).

o filho do poeta famoso, como também o filho da poeta famosa, aparece na tv a dizer coisas. mas as posições daquele filho são mais progressistas do que as deste filho.

“Versos e filhos como os dás ao mundo?”
jorge de sena 

15.6.13

breve périplo

vamos lá.

preciso fazer um post "reminsicivo" - remissivo e de reminiscência - sobre a grécia. deixar aqui só aquela linha escrita enquanto em terras helênicas, definitivas, ia ser uma injustiça (apesar de ser mesmo verdade que não há palavras que descrevam a sensação que nos acomete nos momentos em que estamos em um lugar sempre-sonhado).

a começar, as palavras: descobri, ligando a tv da cabine do navio por alguns momentos, numa legenda de um seriado americano, que "verdade" ainda é "alétheia". algo que sobreviveu a milênios, filosofias, reformas ortográficas e fonográficas, estrangeirismos. em outra tv, do aeroporto, vendo os símbolos ensolarados que me esperavam pra meus últimos dias de grécia, descubro - ou desoculto - que "ho kairós" significa o tempo, o clima: algo que pode ter sido relacionado a colheitas e ao tempo próprio para a brotação de cada coisa. as duas palavras (até tenho uma tatuada) que pra mim eram míticas - eis outra - confirmaram e atualizaram suas existências. até comodificaram o mythos: virou marca de cerveja.

continuando, as coisas: o mar com o "halo azul fenomênico" que sophia descreve numa carta a jorge de sena existe mesmo. o mar tem uma cor profundamente azul. parece até sólido. quando o sol bate nele, parece que o fenômeno físico de refração faz com que apareçam de dentro desse azul raios dourados. juro.

[28/05/13]

meu primeiro dia em atenas.

visitei os kouros e as korai. sophia estava lá. eram as primeiras esculturas da exposição. era interessante, porque os kouros (homens) são todos gigantes e têm uma perna avançada em relação à outra (O Kouros avançou um passo exactamente / A palidez de Atena cintilou no dia//Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos). as korai são sempre menores que o tamanho real (o machismo de tudo). às vezes um bibelozinho, uma estatueta.

estou me sentindo uma garotinha de escola, vendo tudo isso pela primeira vez. lá vêm os franceses. ainda bem que isto não é a frança, senão um museu arqueológico com coisas do século VIII antes de cristo podia parecer um supermercado, mas não parece. até agora estou achando tudo meio rio. a rua que pega pro museu é uma rio branco. com cartazes (trago a pessoa amada), sujeira, prédios horrorosos quebrados, um calor insano. mas nada disso é ruim, me faz sentir meio em casa. neró é água. só falta descobrir como é "ave".

[1/06/13]

toda a gente merece um parthenon pra visitar todo dia ou um pôr-do-sol em mykonos ou as ruínas de ephesus para lembrar que somos mortais e eternos ao mesmo tempo.

toda a gente merece uma bonita morena à sua espera na casa onde estão as paredes que pintei de branco etc.

e mesmo que a morena seja uma ilusão - que seja uma ilusão bem-vivida e não aquelas trancafiadas no armário.

preciso ir a creta para uns dias a mais, preciso ver lesbos e hydra.

descobri que satorini, onde estaremos amanhã, é uma das ilhas do conjunto cyclades, então posso evocar sophia e pessoa à vontade. e como eu imaginava, consegui me conciliar com ela durante a viagem: foi só testemunhar o halo azul (os raios embaixo do azul real) do mar helênico/fenomênico. sophia diz a verdade (mas não toda, assim como homero)

[2/06/13]

sob os muros do teatro de epidauro. sob o sol apolíneo que nos queima reto. sob o muro do teatro e o arco da plateia: sobre o trono do coro trágico, em frente ao altar a dioníso. as montanhas como cenário oficial imóvel.

oiço a palavra alada impessoal
que reconheço por já não ser minha

 [12/06/13]

tem que viajar. em lisboa, no céu de inverno azul cristalino, entendi toda a neura da sophia com a luz. se os invernos que ela passava no porto eram iguais ao que eu passei, a substituição da opacidade do céu nebuloso de lá pelo céu claro de lisboa funcionou como um desvelamento do seu olhar.

agora, em atenas, sob um sol escaldante de primavera, entendo a fixação de sophia pelas águas de todas as fontes, fixação essa que devia ser primeiro dos gregos.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

passando pelo templo de zeus no sol de meio-dia, as colunas verticais mal fazem sombra. entro pelos fundos do jardim nacional amalias procurando um banco à sombra. à direita está uma fonte com que se presenteou a cidade de atenas no ano de 1935. em 2013, não consigo imaginar presente mais oportuno. o verde nem cheira a crise.

tem passarinho, tem criança andando de segway. é meu último dia de viagem e não quero correr pra fazer nada. tem até brisa.
é engraçado observar o turista desfazendo a pose da foto. é um ar desengonçado de quem quer provar que não é maluco enquanto desmancha o sorriso falso. tenho pensado muito no sorriso falso que damos pras fotos.

ainda mais depois de ter feito o teste pra detectar sorriso falso. acabei descobrindo que acredito pouco no sorriso genuíno dos outros. acertei 13 de 20.

a chuva melou meus planos.

[13/06/13]

o que tenho um pouco de dificuldades é ver um mar novo e não saber de imediato a quê ele corresponde no mapa mundi. aterrissando na suíça, contrariamente a todas as expectativas. a grécia ficou pra trás.

7.10.12

estava com saudades de viajar sozinha, ficar sozinha com os meus pensamentos, me alegrar ao ver uma coisa e poder lá ir, sem ser escrava do tempo.

o problema é que às vezes eu só consigo re-pensar no que eu já tinha pensado: como eu gosto de viajar de costas no comboio à hora de partir; parece que olhando para onde você veio, você não perde a experiência, faz aquilo durar um pouco mais. mas antes eu me sentava de costas e continuava a ver lisboa, até que não sei como, não sei por quê, chegava a cascais de costas.


Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar.
[eugénio de andrade]

hoje eu vi o mesmo, mas por outra perspectiva, ou seja: vim de frente pra cascais, de costas para a lisboa dos meus sonhos. foi muito diferente, já que em vez "da cidade a que chego se abrir como se do seu nome nascesse", o que ficava quase estático, mas com um movimento parecido com o dos discos voadores, que ora piscam num lugar ora noutro, era o farol do meio do tejo. aí me veio daquelas sensações: ("o que vejo a cada momento é aquilo que eu nunca antes tinha visto"): passei tanto tempo ignorando essa perspectiva... e agora me parece tão especial... (não sei, algo assim)

a gente precisa passar por essas situações: "o quarto mais barato que tivessem". arranjei um hostel de 12 euros num lugar um pouco sinistro de lisboa. mas na boa: a equipa, composta inteiramente de homens, está me bajulando que só, entre uns brasileiros e outros xarás, eu faço assim: conto com a sorte de terem me dado um quarto em que não tinha mais ninguém, e que seria exclusivamente de mulheres (mal sabem eles...). mas é só ladeira e aqueles pedregulhos que nego chama de calçada portuguesa (e essa civilização que aqui não chega?). 

estou descansada. vou.

11.12.11

no 91o aniversário de clarice

já quase não tá doendo.

mas.

precisa de segurar a sagitansiosa em mim. "sagitansiosa" é um termo cunhado por samuel na ânsia de nomear aquela nossa sede de viver e amar. que nem "sagitaquário" é aquele ser "age of aquarius" que habita em nós e que nos movimenta.

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas
 [sophia de mello breyner andresen.pirata]

30.11.11

comprei "os sete contra tebas", apesar de.

eu juro que, andando na rua, às vezes, não por causa do título da minha dissertação, fico pensando no poema da sophia, que inaugura o primeiro livro que ela publicou, em 1944, com exatamente a minha idade.


Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias.

e a vida tem sido de uma resignação que me propele pra frente sempre apesar de. talvez por isso eu tenha me lembrado de um trecho da clarice:


“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita fui a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.” 

(uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

deixei de escrever durante umas três semanas, durante as quais tenho me corroído - às vezes mais, às vezes menos - com algumas imagens com que a memória nos tortura. a memória sempre nos faz voltar, e dói tanto, quando o presente é terrivelmente insuficiente. "apesar de", assombra-me uma cena: perto da última vez em que te vi, entrei num táxi, com a clara noção de que não era nada a última vez, apesar de meu corpo com maldade ainda desejar "o seu corpo que não é nem bonito, mas é o que quero". está vendo? por isso não devia escrever nada. tem muito o que dizer, mas me confesso demais. te dou muita certeza de que te esperarei para sempre (till i find somebody new), "apesar das ruínas e da morte". e quando a certeza é a ressurreição de uma ilusão cega? qual é a correspondência entre o sonho e a ilusão? para o calderón de la barca a vida é sonho, que vivemos e sonhamos, a um tempo, acordados. de olhos abertos me lembro de tantos momentos, de tantas vidas que incluem a vida que nunca chegaremos a ter, precisamente pelo fato de você não tê-la querido - muito por medo, e a outra parte por incapacidade de ser feliz e de saber viver contra o chronos, cujo sentido é oposto ao sentido que damos ao nosso destino.

apesar do tempo que a tudo arruína, apesar da destruição patente nos escombros, ainda espero, porque é o que me resta.

8.10.11

evocando sophia - em todas as viagens

nos teus límpidos olhos de vidente
as paisagens reflectem-se mais fundas
imóveis entre os gestos da corrente.
[sophia de mello breyner andresen.rio]

preparava-me eu para escrever algumas linhas, poucas páginas (a cota diária: 3) sobre a poesia que decidi estudar. e uma criança mais nova do que o meu projeto de mestrado se prepara para mergulhar na água. o nome dela é sophia.


pra minha imperfeição está suspenso
em cada flor da terra um tédio imenso. 
todo milagre, toda a maravilha
torna mais funda a minha solidão
e todo o esplendor pra mim é vão
pois não sou perfeição nem maravilha. 
[id.pra minha imperfeição...]


17.9.11

gente do céu, do mar, da terra, do fogo e do vento

meu deus, estou tão cansada. maranhão moeu minhas letras. 

estou aqui desde que acordei pra digitar um fragmento de nietzsche sobre a percepção das cores pelo povo grego antigo. a tarefa é hercúlea, é interrompida, torço para "ouvir o poema todo, e não só um fragmento", como também espera a sophia.

penso a todo tempo num poema que sophia dedica a pessoa quando aporta nas terras gregas, transporto isso para o estado do maranhão. penso que o destino da sophia "deveria ter passado nesse porto/ onde tudo é impessoal e livre/ onde tudo é divino/ como convém ao real". nos lençóis maranhenses pensei mesmo ser a primeira presença inicial e limpa, num ambiente sem interferência do homem, sem sinal nenhum de habitação. como se fosse outro planeta, inabitado, ou habitado só por areias, céu, águas, enormes.

dedico, agora, o poema de sophia a ela mesma. penso que ela me ouve, como a presença de um deus animista, peço para que me ouça e lá esteja, no vento que levanta as areias. de modo que, provavelmente, na morte ela se consubstanciou ao universo, se uniu totalmente a esse mistério natural dos elementos, justamente como ela precisava que fosse.

ave, sophia.

4.9.11

"Sabemos que um poema é justo quando ele é necessário àquele que o escreve e necessário ao mundo. O peso das sílabas do poema entrará em equilíbrio com o peso das estrelas. Pois a poesia é um acto de criação integrado em todo o processo criador do universo. Não é uma contemplação exterior às coisas mas uma participação no destino do universo."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética III (texto inédito) in: Sophia - uma vida de poeta.

11.6.11

minha senhora e eu viemos comemorar o dia das namoradas nas praias desse litoral. não pesasse 100 kg a obra poética de sophia, sua linha de força marítima faria bem pra acompanhar o baloiço do mar.

mesmo assim, passei o dia admirando os promontórios, e procelárias e rochas em que o mar se esparramava.

7.5.11

no coração um berreiro

voltar para o rio é das coisas mais perrenguentas e, ao mesmo tempo, aliviantes que há.

adianto que voltar nas condições de um outono chuvoso - quase tão chuvoso quanto abril de 2010 com a queda de uma favela inteira do alto do morro para a lama do chão -, correndo risco desse atlântico transbordar (como se não bastassem as saudades), é muito melhor que o choque térmico de fevereiro
(-40 oC para +40 oC).

a primavera é aquela estação fecunda da qual falei pra vocês no post passado, em que os frutos desvelam sua potência pregnante (aprendi essa palavra numa tese sobre a sophia e tenho me divertido muito com ela).

mas pronto, depois de umas injeções aqui e ali dum vocabulário luso-estrangeiro que não quer me largar (e eu não quero que me largue), voltei ao brasil naquela expectativa de estar calor, eu poder encontrar os amigos para muitas cervejas e exibição de slides, ir à praia, coisas cariocas.

só que cheguei no meio da vida das pessoas - como se alguma vez não fosse assim, sou sempre aquela que interrompe tudo a meio -, era época de trabalho, pras gentes que trabalham, pras gentes que estudam; e eu, nesse limbo, tendo que fazer os dois, mas com excelentes tempos livres de fazê-lo quando me apetecer.

cheguei meio sem compromisso de nada, afora as questões de saúde, sem ter hora pra muita coisa - o que me possibilitou gastar uma média de uma hora e meia em cada viagem em ônibus que cruzam somente a zona sul do rio. isso me irrita, como me irritam muitos procedimentos que considero ser a continuação das burrices lusitanas que vivi por três meses.

me dizem que eu não devo me chatear quando vejo no comboio, sulcado nas tintas da janela azul, "as brasileiras são todas umas putas". devemos só estar lá, sabendo que não somos dessa densidade demográfica, e fazer o melhor do nosso trabalho (pra provar a eles que estão errados). mas quem está interessado em ver que esta não é a verdade? adianta eu desviar minha atenção e pensar "não é comigo..."? adianta não me afetar como povo?

e eu falando sobre tuguices, certamente atinjo alguns de meus amigos patrícios. quem está sendo ilógico agora?

devo dizer, por último, que não me senti nada exilada, em nenhum momento, porque o brasil sempre esteve dentro da minha casa e dentro do meu telemóvel. sempre houve farinha de mandioca, guaraná. de resto portugal é sempre igualzinho ao brasil, em tudo o que presta e em tudo o que não presta.


E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
(sophia de mello breyner andresen, "há cidades acesas" in: poesia)

23.3.11

outro dia peguei bem o comecinho do filme henry & june, cujo livro li há seis anos, no início da minha empreitada lésbica. já é um big win ter stravinsky nos créditos iniciais.

mas não consegui ver muito: tinha que tomar banho pra lavar o cabelo pra desligar o secador antes da meia-noite. não consegui nem lavar o cabelo. voltei pra ver o filme, mas - depois de ter acordado às 6:30 da manhã pra pegar conferência sobre outra womyn writer - não assisti nem meia hora.

(depois desse parágrafo cheio de nãos, conto: desci pro meu cafofo - moro no porão [cave, como dizem aqui] da casa da minha cunhada - e uma súbita insônia bateu em mim.)

soube que um amigo meu, da faculdade, de convivências na casa da minha orientadora, tinha sido preso no meio de um protesto contra a presença de barack obama no brasil. "amigos presos, amigos sumindo assim" me veio à cabeça imediatamente - eu me dando conta de que o brasil nunca saiu de estado de exceção. por mais que raramente concorde com a plataforma do pstu, corcordo menos ainda com um estado/uma polícia que prende manifestantes, aparentemente, por seus ideais políticos. me lembrei, numa segunda leitura de hd, de "biografia", da sophia:

tive amigos que morriam, amigos que partiam
outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
odiei o que era fácil
procurei-me na luz, no mar, no vento.

e morri de culpa por ter votado na dilma, ela também presa política, como pôde deixar isso acontecer no início do seu mandato? como pôde se submeter assim aos desmandes ianques? que faria eu no seu lugar? no da dilma, no do gabriel?

depois de terem sido mandados pra bangu 8, gabriel e os outros manifestantes homens tiveram suas cabeças raspadas, como gil e caetano nos anos 60. as mulheres foram pra água santa (nome irônico pra um bairro que acomoda um presídio), especificamente uma empregada doméstica e uma senhora de 69 anos.

agora eles já foram soltos, depois que obama went home e que a justiça - tardia e falha - interveio sem explicar o que afinal causou esse desastre, quem atirou o coquetel molotov. o que pude fazer eu, nessa distância, com esse contexto repressivo? procurar a mim mesma na luz, no mar, no vento, em tudo o que é livre e nasceu pra sê-lo.

17.2.11

olhos de gaysha

eu vou fazer
um post como os dele
um post bem singelo, português.

se esses posts são adolescentes, me manda um scrap e chama de thalita rebouças!


para lançar depois do carnaval. no carnaval ela vem e será festa da carne (vou até comer bacalhau - que outra graça tem, estar em portugal? R: bairro da graça, travessa das mónicas).

lembra quando a gente escrevia as perguntas que a tia ditava, depois pulava duas linhas, escrevia as próximas, e depois pra responder começava (com lápis ou caneta de cor diferente) com R: ?

esta estátua é walking-distance da minha casa e nemvi. vergonha forever. até meu fotolog já sabia dela...

10.2.11

essas mulheres...

penso em quantas poetisas portugal teve, pelo menos no século XX (florbela, sophia, fiama, luiza), e me espanto de não conseguir lembrar de uma brasileira pós-cecília meireles. tudo bem que não me esforcei pra pensar numa claudia roquette-pinto que não conheço, de todo, nem estou perto de enunciar fernanda young - que fez um livro rosinha que fora a capa não desperta nenhuma curiosidade.

aqui até mulher-de-escritor se engaja com a cidade, o que denuncia que portugal é país para mulheres fortes. diz pilar del rio: "Não tive dúvida nenhuma em vir viver para Lisboa. Não tive nenhum problema de adaptação, quando vim para cá, vim para minha casa."

com isso também começo um manifesto que sempre me prometi fazer em favor do vocábulo poetisa, entendendo que não dizer "poeta" não é nenhum demérito pra mulher que escreve versos. sophia não gostava, o que vai um pouco na linha do poeta sem biografia ou gênero. mas acho que, assim como pilar defendia o uso de "presidenta"(é um mau exemplo, pois presidenta não existe oficialmente), devemos usar "poetisa", sem maiores problemas, simplesmente porque há esse nome específico para a mulher que tem essa profissão. pronto. tô com dona cléo e não abro!


26.1.11

lisboa

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
(Sophia de Mello Breyner Andresen, "Lisboa").

é tudo isso que imaginava, que não imaginava, que nem ligava se existisse ou não, cidade pela qual não tinha tesão.

andando por caiscais me achei em qualquer lugar praiano/ histórico do interior do brasil. e me parece que não muda nada, em mim, portanto.

de cima, qualquer água sinuosa que aparecia eu pensava que era o tejo. quase desiludida, achei que tava do lado errado da janela, quando começo a ver uma nesga de mar (o céu se misturava com a terra, com o rio, com as asas, com o mar). minutos depois, o avião quase mergulha em tanto azul e eu quase morro do coração de tanta lindeza. não sei se exclamei em voz alta ou não: AH!! OH MY GOD! mar-avilhoso...

18.1.11

ora, pois,

este senhor, luis adriano carlos, quer me fazer acreditar que a poesia de sophia (o que seria de nós, sophiáticos - não sofistas - sem esse eco apropriador?) é um elenco de características metafísicas que nem as que aprendemos na escola, com os movimentos literários. diria estamira: AAAAH NUM DÁ!

a nossa mãe é sempre um saco quando visita a nossa casa: nada está limpo, arrumado, inquebrado o suficiente. o bom era se morássemos com elas, situação em que ela nos cobraria 24 horas por dia para providenciar um arranjo pro que estivesse fora dos eixos. quando tudo está organizado, são coisas da esfera externa que precisam de um ajambramento: sua vida amorosa, problemas no banco, visitas que você precisa fazer, contratos (sociais ou físicos)... enfim, sempre uma cobrança sem fim. mas o pior é aguentar a mãe dos outros na sua casa. perspectiva é tudo, a sua mãe parece um anjinho e não aquela mala sem alça. portanto, coloco o meu aviso de porta "me deixa em paz", da mafalda, e me fecho na minha singularidade.

com essas chuvas todas na região serrana, dou graças a todos os santos, mamãe oxum de águas doces, por ter deixado minha mãe vir pro rio antes do dilúvio. ilhada ao contrário por uma semana, ela já está se coçando para voltar à sua casa - que continua inteira, graças a oxum e yansã!

não me canso de fazer listas do que empacotar e o que resolver antes de ir. meus escritos ficam sempre em último lugar porque i'm a big old fat procrastinator. e esse post é exatamente isso!(lembro de quando eu e samuca descobrimos essa palavra com tantos rr. acho que ele ouviu no saia justa e ficou testando na língua)

para finalizar, minha tia, moradora do porto, em cuja casa planejava ficar por esses meses, resolveu morrer duas semanas antes de eu ir. pena não ter te dado um beijinho nessa tua cabeleira branca! achei um volume d'os lusíadas com que você presenteou teu irmão, meu avô, com quem você já deve estar jogando buraco aí no céu, pelo aniversário dele de 1980! (foi um ótimo presente, eu adorei)


11.1.11

meu coração é um almirante louco aposentado demitido

eu sonhei que chegava a alguma Verdade sobre a poética da sophia, em meio à confecção do meu trabalho de fim de curso/capítulo de monografia. devo ter sonhado, não sei, tudo parecia claro-cristalino, e tudo o que eu pensara antes era mentira reiventada dos artigos por aí... e agora esqueci.

mas don't it always seem to go
that you don't know what you got 'till it's gone?

há tempos samuca recomendou esta ferramenta do google (eles mapeiam tudo, meu deus...), e foi só lendo o resgaste dela pelo rafa que eu dei valor... resolvi procurar mar e terra e descobri que as pessoas gostam mais de ficar do que viajar...

10.11.10

tudo isso sem sair do meu flamengo

a internet é o máximo, né? além de achar vários livros que um dia lerei sem precisar empoeirá-los ou gastar meu parco dinheiro, através deste sistema posso passear e passar pelas avenidas em que sophia morava e que cantava a seus filhos. graças ao google maps, descobri que o "noturno da graça" faz referência a um certo largo da graça, logradouro em que vai dar o fim da travessa das mónicas, rua de sophia. rua de ondas sonoras de uma certa igreja onde batiam sinos e iam dar aos ouvidos afinados e clássicos da poetisa que (Esta escritora que não gostava de ser apelidada como poetisa) escritora que sabia que a poesia vinha do som antes de estar nas letras e no papel.

isso tudo pra dizer que: estou indo pra portugal, beijos.

14.8.10

sophia, a europeia que gostava de banho

evidente: é tudo isso uma piada, mas o movimento exato, a coluna ereta e a voz firme de sophia não:


(gosto quando ela fala de coisas eternas junto à movimentação da casa, tudo uma bagunça - a vida à beira: "ó, francisco, mas o que é isto?")

olhem, quando eu comecei a pesquisar a sophia, no início de 2008, tinha bem pouca coisa dela no youtube, pela internet - mesmo as obras: eram poucos poemas, o google apontava pra sites com wallpapers de praias e fundos musicais em midi.

de modo que quando vejo tanta coisa assim sendo apresentada, publicada, resgatada - entrevistas, espólios, encantos de leitores com a sophia aqui e ali - fico muito feliz. acredito que sophia também ficava, porque faz precisamente poesia que vive, que se atualiza.

às vezes sinto essa heleno-lusitana-nórdica como se ela fosse uma grande amiga. no entanto só recentemente a vi em movimento, só recentemente ouvi sua voz... e vezes há, suponho, "seres um milagre criado só para mim".

6.4.10

poetas portugueses explodindo em: eu

por teus olhos negros, negros,
trago eu negro o coração,
de tanto pedir-lhe amores...
e eles a dizer que não.

e mais não quero outros olhos,
negros, negros como são;
que os azuis dão muita esp'rança,
mas fiar-me neles, não.

só negros, negros os quero;
que, em lhes chegando a paixão,
se um dia disserem sim...
nunca mais dizem que não.

(almeida garrett)

peguei a citação clariana favorita de rafa para dizer que em matéria de saudades e dor do amor ardente os portugueses são mestres. eis que hoje, dia de dilúvio no rio de janeiro (e de que mais fala a internet brasileira?), em que da janela vejo cena parecida com as nevascas inacreditáveis do canadá, resolvo procurar em camões o que antes era ba-ta-ta encontrar no vinicius. epigrafei o post com o garrett, mas logo volto ao Poeta maior.

veja, minha vida:

erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que pera mim bastava amor sòmente.

tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

errei todo o discurso dos meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

de amor não vi senão breves enganos.
(...)


tão verdade.

diz ele no canto V dos lusíadas:
Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
Já que a minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
que te custava? já não sei o que amo: "o amador", "a coisa amada" ou o desejo. não precisamos do amor real, já que:

Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

diz sophia de mello breyner sobre o poeta:
A poesia de amor de Camões é escrita dentro de uma tradição de poesia do amor impossível, que vem quase até aos nossos dias.

Na maioria dos seus poemas líricos corre esse longo pranto do amor inacessível. Num mundo de madrugadas e névoas, de separações, de ausências e de naufrágios, passam os rostos das amadas mortas, distantes, negadas, inatingíveis, afogadas no Índico.

(grifos meus)

diz sophia, ainda: "Camões resiste e, porque resiste, sofre, vê e denuncia essa desatenção, essa surdez asfixiante". embora estivesse falando especificamente de portugal, isso pode - muito bem - servir ao amor, também. a gente resiste, "a gente vai contra a corrente/ até não poder resistir". a gente resiste em chamar essa indiferença - esse olhar blasé, essa desatenção e desprezo em relação ao amor - de vitória nossa de cada dia.

por isso minha sereia cinda gonda sempre diz: o bom é amar o amor! porque se você ama um objeto e ele se vai, você fica sem amar. agora, se você ama o amor, está sempre amando. acho que por isso as pessoas me acham tão perdida, tão destinada a sofrer de amor pra sempre. e que assim seja, amém.