de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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23.10.15

não ouso repetir o que pedi

parada na escada digo, baixo, amor, espero por um beijo que acaba não vindo. me resigno, já vi tudo mudar: eu passar a não dormir, você passar de enérgica a esvaziada, a gente arranjar móveis novos, cantos onde passamos sozinhas a solidão do nosso encontro perpétuo;

digo que o beijo que esperava não vem mesmo, mas não ouso repetir o que pedi.

estar em lisboa mas nunca ver ou voar em lisboa. numa calçada da mouraria - onde estive com ela com certeza - vi um passarinho enjaulado e dois balões de fala:
"OLÁ"
"LISBOA"
não sei quando primeiro me ocorreu que roma podia ser um bairro. era o começo de 2011, a década e o amor ainda estavam no início. por causa de uma greve de metro tive de ir por cima da superfície. e aí achei: avenidas com nome de países, países que se tornavam cidades, não sei quando me dei conta de que podia transplantar praqui todos os meus sonhos e arrastar você pra eles comigo e te obrigar a viver numa terra alheia.

19.10.15

até abrir o caderno já não sabia mais. estou com uma vontade louca de fazer xixi (como decidir se isso interessa? - já sei: não, it doesn't)

cidade de óbidos - é quase
(vila)
ódios,
adiós
o que faço?
na verdade vim
praqui e não sei
ainda o que estou
fazendo, mas se calhar escrevo um livro chamado muralha -
porque já morei (demorei) colada ao muro do castelo de São Jorge, pela totalidade (eternidade) de dois anos. e sabia que não seriam eternos. e pra além disso sabia que o castelo não é mais uma morada, como foi de reis e rainhas, com trono e coroas e um armário (para armas) em que cetros e pedraria estão expostos, mas o castelo é já uma ruína, e pertence a um Santo, que já não esconde a presença do mais preto, aqueles chamados de mouros e que ocuparam à sua moda aquela localidade chamada mouraria (que é onde morei-demorei).

 
 
 

1.7.15

autobiografia sem fatos

Seria muito mais fácil se eu só encontrasse um café onde pudesse me sentar e ler pelo valor de 01 tarde. Consegui me maravilhar com tortas, quando o que queria era o que tinha andado à procura nas noites anteriores: um bolo de morango e chantily. Mas o que tinham na vitine não era bem o que estava à venda, ou seja - por uma fatia eu precisava comprar o bolo todo. Não estava me sentindo tão empresária, então não fiz. Era preciso que eu conseguisse me sentar e ler o final de um livro de poesia até me arderem os olhos: era daqueles poetas herméticos. Mas vi a funcionária do café sendo maltratada pela dona do café e tudo isso me desanimou. Poesia uma hora dessas? Não importa se a duas portas daqui tinha sido o escritório do Fernando Pessoa, onde ele escreveu páginas do livro do desassossego, criando um guardador de livros que talvez desempoeirasse um volume de mensagem duas quadras daqui. Era indiferente se a duas quadras seria a rua dos douradores, se aqui se vendiam bolos dourados e não os que procurava. Aqui agiam com um bom humor a disfarçar um destrato pleno. O próprio jeito de decorar o café era a síntese da mímesis: as cores eram disfarçadamente antigas e desbotadas, mas o cartaz era de plástico. Tudo parecia desonesto e fingidor.

15.1.15

há dias em que realmente gosto de estar nessa cidade, sinto-me a morar nessa cidade, sinto-me pertencente à cidade, como cachorros e pássaros e sacos de lixo pra reciclar. há dias em que o cachecol prende-se aos seus cabelos, como naquele dia em que tínhamos a certeza de que ao lado do metro haveria um parque - um sítio enorme, dizia-o eu -, mas andamos mais de meia hora sem encontrá-lo, e ainda ao chegarmos você se decepcionou com o tamanho do jardim, que era mais uma praça, e nem vista para a cidade tinha.

há tardes frias, mas com sol, então você diz que gosta mesmo de cursar o mestrado, já eu já esqueci tudo o que me trouxe a essa terra de neves e parques e só me apetece ir para dentro, onde está quente, e pedir uma tosta quente, um chá, quente, e onde você pede uma imperial, gelada. é tudo fruto do nosso temperamento: o meu quente, o seu gelado, e andamos assim trocadas a fazer troça dos portugueses pela rua e a rir alto - eu, que nunca confio muito em brasileiros adaptados demais a portugal, sua terra eleita, nem em portugueses muito bem ajustados a portugal, a terra da qual não escapam embora isso seja tudo o que queiram.

fazes amizade com todos os cães do parque que ladram como tu, e minhas mãos estão gélidas e os acariciam só para ficarem aquecidas.

18.8.14

ao longe os barcos de flores

viajar dentro do rio, como se o rio finalmente deixasse de ser aquela paisagem de cenário - pano de fundo que não se mexe. e então essa cidade - a que chego vinda do Sul - se abre para a noite, e às vezes estou presente, e às vezes estou ausente.

exemplo:

presente:
este é o tejo, que serve para um monte de coisas, inclusive para segurar a ponte 25 de abril de um lado ao outro lado e guardar o sol que se pôs.

ausente:
aqui é a baía de guanabara, que atravesso para nada, pelo gosto de ir, e a outra cidade, que me espera de volta, abre os braços por cima de mim sem perguntar o que fui fazer fora.

presente:
penso "estou com frio" e digo "estou com calor", como se o texto oficial que emito só pudesse, maoisticamente, dizer o que desejo e não o que é.

ausente:
"ai que frio" no Rio, inventando noites nórdicas quando tudo o que sinto é um calor que cria uma capa de suor, como uma segunda pele, uma casca.


28.6.13

as coisas passando, eu quero é passar com elas

todo movimento tem à partida a imobilidade de uma pedra. cada pedra tem em si o voo imóvel. ou voo ou senão... um estar de rastos. ou então: o desintegrar-se em pedras mais pequenas, areia funda. ou ainda: a água que lentamente compõe tudo o mais. em pedra dura, é a sede que a pedra consome.

ficou para trás um país mormente feito de pedra. pedra no mar, nos corações, nos matagais.

pedra em miragaia, pedra em miramar, pedra em tua nudez.

pedra em tudo.

pedra que pede: não pares de pensar em mim, não pares nunca, não se vás, não fiques, esteja, esteja, seja, seja, pedra, pois, pomo, mar, pomar.

pedra álgida na lágrima que se equilibra em sílaba que não sai, não sai, porque não vens comigo, não vens e a saudade me rouba todos os cais petrificados dessa terra de porto e calor.

25.1.13

nunca mais tive notícias tuas.

hoje passei pela praça dom joão I dentro do carro do pedro, o maldito rádio soando aquelas canções horrorosas aqueles jazzes, aquelas ellas fitzgeralds, quis morrer, porque isso é música pra ouvir debaixo das cobertas com essa chuva e neblina, tudo embaixo dum lençol em frente à lareira, e se calhar com almofadas que cubram glândulas animadinhas demais, agora eu com a minha própria casa na cidade do porto, essa que rebatizo de Iansã Invicta, passando pela praça dom joão I, no centro da cidade que pensámos em escolher para nós, que achávamos a mais acertada, a mais irónica, a mais inteligente dentre as cidades portuguesas e uma espanhola que percorremos juntas, hoje passo na praça que passei com um passo incerto, mas amparado, porque seguravas a minha mão, porque estávamos juntas e nos amávamos e tivemos quem sabe certamente o momento mais prazeroso em termos de reações cerebrais químicas que era: entrar numa banheira num quarto de hotel quase seu homónimo, e agora eu com esses acentos quase aculturados, custo a recolocar o brasileiro circunflexo, nós na banheira quente e com sabão quase até o tecto depois de ter passado o dia a andar, tu escrevias no espelho eu te amo, eu lia os lusíadas e era tudo bom porque era assim.

mas hoje eu realizei o nosso sonho conjunto, faltando um nada para ter um filho e chamá-lo do nome que escolhêramos para batizar os nossos - sem que eu saiba a previsão do parto, porque não fiz o pré-natal, acho que não o fazem em quem não está grávida - o certo é que não precisavas estar aqui, realizei-o por nós duas por um golpe talvez um pouco fortunado demais do destino, e graças ao fato de não estares mais comigo, não me amares mais, não precisares mais de mim (se é que algum dia já precisaste), o que importa é que venci e vivo sem você, que um dia andou comigo pela praça dom joão I e não fazíamos ideia de onde estávamos, e quem sabe não fazia ideia de quem eras mas de fato eras minha e eu era tua e fazíamos isso funcionar; depois passei a saber um pouco mais de quem eras, mas não era a altura de fazer funcionar mais, o troço degringolou de vez, mas acho que as melhores histórias são mesmo as que terminam em dois pontos

portanto aqui estou nesse carro com esse homem que não é nem um pouco meu mas com quem faria um casal com 67% de sucesso amoroso, mas que é teimoso demais pra se deixar querer, mas eu aceito, como aceitei a tua falta por três meses de paixão transatlântica, e depois os três meses que levaram pra coisa se acabar de vez, isso porque você não era suficiente rápida para ver o desastre antes de ele se manifestar, e eu via mas não dizia nada porque achava que podíamos acabar morando juntas no porto ou em curitiba ou aonde fosse que estava bom, isso até surgir o homem da minha vida e me emprenhar, como aposto que era o seu medo o tempo todo, gostaria até de ter feito isso que era pra te magoar duma forma que fosse inconsertável e te fizesse perambular pela praça dom joão I a pensar o que tinhas feito de errado mas então não haveria resposta.

ps: nunca mais tive notícias tuas.

18.11.12

diálogos lyonenses

- fê!
(fernanda e felipe respondem) - oi?
- não, o outro felipe.
- ah, tá.

(?)

- o aristóteles detesta teatro.
- é, o cara que meteu o pau na tragédia na poética não gosta de teatro.

--

e estive pensando em situações, menos no sentido de situações comediais (Sitcom) e mais em fantasia pura, que de surrealista tento transformar em realista, com uma tinta de distanciamento irônico e umas pinceladas de romantismo:

- você está quieta hoje.
- é, sei lá.
- tudo bem?
- é que tinha umas coisas que eu queria fazer. há muito tempo-

o pano cai e eu volto pra mim, pra cidadela, pro amarelo do outono, pra longas caminhadas nas pedras de um outro país.

12.4.12

I keep sitting on these tables with water dripping from air conditioning, this dumb luck of sticking to randomly chosen places that were already taken.

You giving me a silence treatment       I still asking you out, this time because I really don't have anything to lose, because in spite of all I do want for us to be friends, your closeness is not, I don't think, something I would stand to lose. I don't mind us not fucking again, once was more than enough for you to show how lovely you are in every aspect of your life, plus one unreturned phonecall, text, facebook tag was more than enough for me to get the message you don't want me to fall in love
(too late)
and still I think you did fall a little for me too but something kept you away.

28.1.12

vai ser engraçado

porque não tem um dia que eu saia e não pense que possa encontrar você na rua. mas na maior parte das vezes isso pareceria impossível - porque ela não vem presses cantos, nem eu vou pros dela -, mas hoje eu pensei que poderia encontrar, como tantas outras vezes, e tive a certeza de que você pensou também. chacoalhei o pensamento pra fora - porque, você sabe, esse tipo de quimera faz a coisa realmente acontecer: já tive muita prova disso.


quando uns meses antes de te conhecer, queria encontrar aquele meu amigo, sonhava com ele virando a esquina enquanto eu chegava ao campus, e aí nos demos aquele abraço desajeitado, mas definitivamente cheio de carinho, enquanto eu ia e ele vinha.

dessa vez, no sinal fechado, restou como que um minuto para que eu pensasse no que fazer: 1) ignorar 2) cair com as compras todas no chão, como no conto amor, e ter uma epifania 3) sorrir triste.

eu me aproximava e ainda parecia que você não tinha me visto, talvez fosse uma técnica, até que você diz "oi, tudo bem?", e o amigo do lado parece saber de toda a história, enquanto eu sem olhar alcanço a sua mão, só pra você entender que eu te vi mesmo e não tava querendo fugir da situação e chego ao portão tremendo.

27.8.11

Mas que mundo mais vagabundo é esse?

Esse Mercúrio retrógrado anda fazendo muita lambança na vida de todo mundo. De modo que não tá fácil pra geral.

Que mundo mais vagabundo, tem diferença entre pegar um ônibus num dia de semana - o 485, de qualquer maneira, não para nas quebradas, só quando calha de ter um sinal vermelho e ele ser obrigado - e num sábado ensolarado.

Na verdade o sábado não estava ensolarado, tava aquele lusco-fusco com o qual estamos acostumados: às vezes chove, às vezes abre tudo, como se nada tivesse acontecendo.
Ao chegar no meu bairro, só olhando em direção da minha casa é que o céu estava preto, o resto estava azul. Parece mesmo utopia: é só adiante que está o negrume.

Me recuso a sucumbir. Mas também me recuso a escrever ou ler sobre o tema da minha dissertação. Eu já estou pagando por essa vadiagem. Nada a ver com isso, mas ontem eu paguei dez reais pra ver aquele filme Árvore da Vida. Cheguei atrasada, sentei na primeira fileira. Só tinha começado há muito pouco. 3 minutos de projeção e eu já comecei a chorar. Senti que não ia aguentar e fui embora 7 minutos depois. Fiquei ali parada na porta do banheiro pra decidir se ia voltar ou não. Não voltei. Depois que a fila da plateia do filme que estava pra começar na sala ao lado passou, eu saí definitivamente da área de quem paga ingresso. Faltavam alguns minutos pra fechar a livraria, e eu tinha decidido esperar o fim do Árvore da Vida pra ver meus amigos que tinham me convidado. Comprei um livro que já tinha namorado lá nessa mesma loja, pra passar o tempo. Sentei no café. Não aguentei de novo. Fiquei com a cabeça entre as mãos pra ver se eu conseguia me decidir sobre o que fazer. Não me decidi, mas quis ir embora dali. Perdi um ônibus pra minha casa. Estava chovendo e eu me senti um cachorro molhado sendo segurado pelo cangote, pra ver se eu era de raça. Mas eu não sou de raça. Fiquei amando sozinha e pedindo perdão. Amo a parte que me segura pelo cangote e a parte que é amparada na chuva sem saber o que faz. O amor solitário tem dessas coisas: ele se desdobra todo. Passou um ônibus para Triagem. Nesse eu entrei. Entraram atrás de mim dois suspeitos por porte ilegal de absolutamente nada. Não acredito em Deus, e, não sabendo a quem orar, pedi a uma amiga muito espiritualizada que me ajudasse. Ela ajudou. No ponto seguinte ao meu pedido, os suspeitos desembarcaram. Cheguei ao meu destino sem saber muito como. Vi na rua, durante a chuva, um cãozinho molhado sendo agarrado pelo pescoço. Penso: coitado do cãozinho molhado. Eu sou um cachorro molhado.

14.6.11

Num dia de chuva todos nós queremos ser escritores. Nós nos esparramamos num divã qual fosse um consultório de psicologia numa varanda, para que se observe com a verve exata o esparramar de gotas até o chão. Com a velocidade e o vigor com que caem os pingos esperamos que as palavras se orquestrem certeiras, e que consigamos espancar com tal fulgor o teclado que o barulho das letras se enfileirando no papel justo e branco consiga ser ouvido por cima do som do líquido indo de encontro ao sólido.

As águas, não importando se estão em movimento oblíquo, vertical ou horizontal fazem o mesmo som da radiofonia. É porque estou longe, de frente para uma mata que me encobre ambas praias e rios, que ouço – na chuva – o correr do rio e o vagar das ondas. E por causa do vento que me encharca preciso pensar que nem os antigos antes que o céu desabe, sob o risco de molhar todo o meu trabalho e não poder mais ser um escritor cuja obra sobreviveu ao dia de chuva.

Similarmente ao desejo de ser escritor enquanto o dia está inspirador pra se afogar nas palavras, os dias de tempestade servem para que os leitores leiam os textos adequados à situação: uma poltrona, um abajur de um metro e meio pendendo para cima do móvel, para que num fim de tarde, a luz amarelada da lâmpada possa servir ao degustador das letras no seu roupão. Enquanto acende o cachimbo, o leitor encarna uma espécie de homem de negócios do século XIX com tempo para ler romances. No tempo em que ler romances não era coisa que se delegava às figuras femininas – bem pelo contrário – e os homens não passavam mais que as horas de trabalho na frente das máquinas.

Num dia de chuva cabe sempre uma outra personagem além do escritor e do leitor com o roupão e o cachimbo: a mocinha dos devaneios. Ela suspira – naturalmente ou com o artifício de artigos de fumo – enquanto olha pela janela o janeiro escorrendo no vidro. Pensa no seu herói amante, que nunca há de reencontrar – ou que na verdade ainda não encontrou senão nas páginas dos poemas. Na época em que as mocinhas podiam ler poemas e não sonhavam ainda com os galãs das telenovelas. Assim que anoitece ou a chuva estia, a mocinha se esquece do homem – que na verdade continua estirado na sua poltrona divã lendo qualquer baboseira da ordem do dia – e vai coser um bordado até a hora de jantar.

25.5.10

bandeira-drummond revisited

mas essa lua
e esse conhaque
muito cosmograficamente,
como o diabo.

17.5.10

a dor

pelo menos o homem em coma, feito pedra, tem alguém que lhe cuide, incessantemente. eu sou feita penha-penhasco, precipitando o abismo, perplexa em abandono. quem é que está sobre meu leito? só tenho quem chore à distância, por sobre a cova, nenhum que tenha estado pacientemente ao lado.

a vida é assim, amigos-da-onça, é muito dura de se enfrentar sozinho (com o mito de que se está na multidão). e sozinhos estamos sempre, até a morte inexorável; não há novidade em termos de morrer desacompanhados.

(meu primeiro passo para a solidão, antes do desencarne, é ter essa consciência, morando sozinha e tentando resolver tudo por mim, mobilizando o mínimo possível o destino alheio. nessa destituição de ego, procuro aprender a pedir ajuda sem me sentir culpada, ou atrapalhando, ou exonerando.)

e o que fazem é querer me dopar, a enfiar-me agulhas com anestésicos, tudo fruto de uma sociedade doente na raiz, que não sabe lidar com a dor. então etiquetam-me de acordo com a intensidade da dor - como se a real dor pudesse ser medida - e visto uma pulseira verde como os verdes campos a mim vetados, porque frequento hospitais de luz fria, corredores verde-doença.

o que me fazem é trocar meu sangue por esse líquido incolor, não sei se tentam me tranquilizar ou me drogar, simplesmente. mas resisto, bravamente, porque estou sozinha, e a droga que me enfraquece o sangue vigoroso acende a indignação. insurjo-me contra me deixarem num canto qualquer, numa cadeira esterilizada em meio à sujeira semi-aparente.

etiqueta verde campo numa mão, líquido verde-morte na outra, espero o diagnóstico que me porá mais uma vez imóvel.

16.11.09

14.11.2009

"o que tua boca saberá do meu corpo?", adriano alves

a minha boca é muito pouca
do teu corpo.
não sabe nada
ou muito pouco
embora o espaço seja imenso
ela sabe
a vinho e de ânsia.
à distância entende, encontra, seca, torce
descansa em sol a pino
sustenido e aumentado

minha boca tem seu mar de navegar
mas agora é só destino
de sede
e cedo
à moira que é traiçoeira
comigo
[fernanda drummond]

2.11.09

recusa-se — antes de toda a impaciência — o que nem chega a formar um rosto: recusa-se, muitas vezes, um temor natimorto. Ao avaliar a combustão do que não nos apropriamos, ignoramos a possibilidade de compor, com os objetos rejeitados, um rigoroso, severo afeto, porque corroemos o que não podemos controlar.

[casé lontra marques]

28.9.09

quem disse que não se fazem amigos bebendo leite?

Daneri me telefonou, penso que pela primeira vez na vida. Propôs que nos reuníssemos às quatro, “para tomar leite juntos, no contíguo salão-bar que o progressismo de Zunino e de Zungri – os proprietários de minha casa, estarás lembrado – inaugura na esquina; confeitaria que gostarás de conhecer”. Aceitei, com mais resignação que entusiasmo. Foi-nos difícil encontrar mesa; o “salão-bar”, inexoravelmente moderno, era apenas um pouco menos infame que minhas previsões (...)

[jorge luis borges.o aleph]

1.9.09

desejo dilatado, prosa condensada.

não é tempo de sapho, meu amor, e nem é mais o do desconstrutivismo fragmentário de carapuça pós-moderna. não tenho desculpas ambientalistas para não poder estender em prosas largas a contrição em que, durante todo o dia, passou meu coração. devo dizer curto o que sinto se alongando, num ondear: vá buscar quem mora longe, sonho meu.

é um absurdo que não esteja disponível a tua versão compacta dobrável inflável pra dar companhia.

porque se fosse - este o tempo de sapho - minhas lacunas soariam menos, para soarem mais. e carregariam questões filológicas de conservação e recuperação das palavras. mas o tempo é este, computatório, palímpsestos de inconclusão flutuam pela world wide web e não tem teia que te traga, não mais tragam os olhos de ressaca.

aqui a conservação e recuperação verbais depedem de mim, que sou tão incapaz do milagre de conversão da vida de energias corporais em palavras recheadas de felicidades do real. na minha mão, o texto só encobre de chocolate fino e frágil o vazio das palavras que me escapam. quando deveria ser aquele coelho de páscoa maciço que nem dá para abocanhar de uma vez, só roer pelas beiradas. na minha mão, ficam só esses restos provisórios, que ouço bem baixinho pela boca da secretária da musa.

12.6.09

mendes

da infância: parede pela metade com janela, frio de rachá-la e a chuvinha pontuando o girar de clube da esquina. come tangerina guiúguiú deixando os bagaços. a consciência de que a cena ficará guardada em algum lugar pra ser pinç[el]ada dali a dezessete anos. eu devia saber viver, mas sabê-lo não era importante, então eu só vivia.