vinte e cinco anos atrás caía uma certa poetisa de 33 anos por uma janela de copacabana. hoje cinda citou um fragmento de ana cristina césar (que acha que é fernando pessoa, e acaba sendo corroborada por uma cronista, nuns globos atrás - pelo "dom" de ser pela fragmentação), que a flagra perfeitamente: "sou uma mulher do século dezenove disfarçada em século vinte". uma coisa assim (tá, eu colei do google). século XIX porque não deixa de ser mulherzinha quando era pra se abandonar nome, gênero, espaço e tempo. continua mulherzinha porque tem um livro chamado "a seus pés" e não tem como isso não parecer submissão ao amante. porque guardava guardanapos de bar com rabiscos numa pasta rosa, que estão sendo lançados agora, com o nome de "antigos e avulsos". porque não consegue escrever falo sem um ruborzinho de menina de 13 anos, atentando pra modalidade substantiva do termo - esquecendo-se de que a piada é velha, desde luiza neto jorge ("falo/com uma agulha de sangue/a coser-me todo o corpo/à garganta"). porque imita luiza neto jorge com muito menos humildade do que se compara a fernando pessoa. porque tinha caio fernando abreu - que equivale a ela na imitação e falsidade - como melhor amigo gay.
tá, metade disso eu tô inventando ou falando sem conhecimento de causa. mas falando sério, tem uma hora pra ler ana cristina césar. borges diz que poe e wilde são autores pra se ler jovem: "porque se a pessoa chega a eles quando está velha, grisalha e entrada em anos, essa leitura dificilmente pode ser prazeirosa". acc é isso. clarice também. mas clarice ainda tem riqueza de imagem, complexidade na voz, crise de gênero, dá pra espremer suco dela pro resto da vida. todos os que falam que não gostam de clarice é porque não foram - pelo menos mentalmente - meninas de 17 anos. 17 anos é a idade que você tem quando diz "essa mulher me traduz". e isso talvez equivalha, pros meninos, a baudelaire e poe. aos 17 anos você começa a pensar, a achar que sabe escrever o que pensa. a achar que pode ser fernando pessoa. mas se chegou os 33 e você ainda não é, tendo, no máximo, se formado em letras pela puc e estudado com a cleonice, você se joga da janela (ironicamente, sorri pra mim um livro da sophia cuja capa é uma janela ensolarada. dá vontade de bater na madeira verde, soprar as cortinas e dizer: "anaaaaaaaaaa! ô anaaaaaa! se joga!").
isso tudo é raiva porque nunca consegui fruir ana cristina césar. no máximo, me lembrar da erica na minha casa, eu com 18 anos, ela entoando "tenho ciúmes desse cigarro que você fuma tão destraidamente" de maneira obssessiva, enquanto eu furava o copo de plástico com a brasa. era minha idade de gostar de ana cristina césar e feminismo e contradições entre ser emancipada ou ser mulher do século XIX. e eu não aproveitei.
falta um pouco mais de 10 anos pra eu ter 33. anos pra treinar a mão até achar que sou poeta. não preciso que me publiquem porque já tem internet. não consigo ser mulherzinha: "diferentemente me concebo e só do avesso/ o formato mulher se me acomoda". mas ainda preciso de luiza neto jorge.