de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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2.12.12

i blew it all through the air

escrevi um texto sobre o pedro. no meio do texto tive uma ideia de presente pra dar pra ele, e achei que uma parte do texto podia servir de dedicatória. já que minhas chances, pelo menos por enquanto, se esgotaram, achei por bem postar aqui. porque eu tolhi a parte em que era extremamente clara sobre minhas más intenções para com ele. e agora é hora de ir a lume. lá está-

Minha paixão pelo Pedro já virou uma paixão por oposição, se intensifica por causa dessa oposição, e me movimenta, me irrita, me tira da inércia, ou, como dizem, me ofende, me fere, me demove, comove, compõe e decompõe, me morre, me erra, me faz ser a pessoa mais ignorante do mundo - e talvez a mais sábia por reconhecê-lo, é uma paixão Lóri/Ulisses. Talvez deva ser esse o livro para eu dar a ele, essa a aprendizagem que eu tenha a oferecer-lhe, é um livro de amor, de lógos, de desorientação, deslocamento, persona, lágrimas, táxis, rio.
esse Rio que é mais mar que o mar
Um Douro muito controverso, sem cantadores, que (en)torno em: eu.
Não é assim que começa, nem bem assim que termina,
é vasto, vai durar

29.12.11

não sei se é o caso de falar (provavelmente não), mas percebi que hoje faz dez anos que perdi a virgindade. comemorei com macabéa, essa que nunca conseguiu perder a sua.

11.12.11

no 91o aniversário de clarice

já quase não tá doendo.

mas.

precisa de segurar a sagitansiosa em mim. "sagitansiosa" é um termo cunhado por samuel na ânsia de nomear aquela nossa sede de viver e amar. que nem "sagitaquário" é aquele ser "age of aquarius" que habita em nós e que nos movimenta.

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas
 [sophia de mello breyner andresen.pirata]

30.11.11

comprei "os sete contra tebas", apesar de.

eu juro que, andando na rua, às vezes, não por causa do título da minha dissertação, fico pensando no poema da sophia, que inaugura o primeiro livro que ela publicou, em 1944, com exatamente a minha idade.


Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias.

e a vida tem sido de uma resignação que me propele pra frente sempre apesar de. talvez por isso eu tenha me lembrado de um trecho da clarice:


“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.

Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita fui a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.” 

(uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

deixei de escrever durante umas três semanas, durante as quais tenho me corroído - às vezes mais, às vezes menos - com algumas imagens com que a memória nos tortura. a memória sempre nos faz voltar, e dói tanto, quando o presente é terrivelmente insuficiente. "apesar de", assombra-me uma cena: perto da última vez em que te vi, entrei num táxi, com a clara noção de que não era nada a última vez, apesar de meu corpo com maldade ainda desejar "o seu corpo que não é nem bonito, mas é o que quero". está vendo? por isso não devia escrever nada. tem muito o que dizer, mas me confesso demais. te dou muita certeza de que te esperarei para sempre (till i find somebody new), "apesar das ruínas e da morte". e quando a certeza é a ressurreição de uma ilusão cega? qual é a correspondência entre o sonho e a ilusão? para o calderón de la barca a vida é sonho, que vivemos e sonhamos, a um tempo, acordados. de olhos abertos me lembro de tantos momentos, de tantas vidas que incluem a vida que nunca chegaremos a ter, precisamente pelo fato de você não tê-la querido - muito por medo, e a outra parte por incapacidade de ser feliz e de saber viver contra o chronos, cujo sentido é oposto ao sentido que damos ao nosso destino.

apesar do tempo que a tudo arruína, apesar da destruição patente nos escombros, ainda espero, porque é o que me resta.

31.8.11

O Jun falou que um meio de se forçar a escrever é se dar pequenas recompensas após ter uma ideia boa e/ou sentar e escrever um pouco. Só não pode ser cigarro, que aí a pessoa vicia e se caga toda. Mas eu também posso ficar gorda se eu for comer sorvete de chocolate com rodelas de banana, nesta conjuntura. Aliás, não é nem na conjuntura de escrever um pouquinho, mas sim na de estar há quatro horas na frente do computador e só ter consertado umas coisas na bibliografia, nas notas de rodapé e na revisão do texto.

Mas eu "andava exasperada como se os outros estivessem comendo o que era meu. então, de raiva e fome, de repente comi o que bem quis." (A Descoberta do Mundo)

Se a Clarice pode comer demais pra se recompensar, eu também posso.

11.7.11

só que minha violência para com deus tem que ser comigo mesma. tenho que me violentar para precisar mais. para que eu me torne tão desesperadamente maior que eu fique vazia e necessitada. assim terei tocado na raiz do precisar. o grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é minha medida. (...)

a tentativa de comer mais do que podemos para aumentarmos artificialmente a nossa fome - na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.

mas, já que somos pouco e portanto só precisamos de pouco, por que não nos basta o pouco? é que adivinhamos o prazer. como cegos que tateiam, nós pressentimos o intenso prazer de viver.
(...)

para termos, falta-nos apenas precisar. precisar é sempre o momento supremo. assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. a revelação do amor é uma revelação de carência - bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.

se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. e, porque assumi a minha falta, então a vida está à mão. muitos foram os que abandonaram tudo o que tinha, e foram em busca da fome maior.

a paixão segundo gh.

20.10.10

: (ou - "o que é seguir"?)

continuação daquela vírgula do começo do ano: culminei em dois pontos, agora.
ou: será que é uma culminância, se continuo?

hoje foi minha prova de aula, falei de clarice. fiz muita coisa com um cuidado muito maior que tinha outrora, pareceu até que eu era uma pessoa organizada, com planos de aula, idas ao quadro, handouts, celular avisando de 5 em 5 minutos pra eu não me perder no tempo. não foi dito tudo. tudo muito bem, porque "todas as coisas do mundo não cabem numa idéia. Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo".

reconsidero algumas coisas: meu voto, que talvez fosse nulo e agora vai pra dilma; meu ex-voto de "nunca vou dar aula, não nasci pra isso". é tudo uma aprendizagem mesmo, só para quando a gente morre. de modo que essa coisa cresceu na minha concepção, a coisa do magistério, e também cresceu, com muito trabalho e auto-disciplina (ainda minada e sabotada, mas tô melhorando), minha auto-confiança pra dar aula. só de ver os sorrisos daquelas pessoas... parecia, por um momento, que todos nós tínhamos mesmo que estar ali: que desfrutávamos. e é isso que tinha falado no último post - se até ali não tinha me apropriado do magistério, me vendo naquela profissão, hoje, em fulgurações epifânicas, tive momentos felizes. seria feliz fazendo isso, gosto mesmo e é bom fazer o que se gosta, pronto. saber que os outros gostam do resultado daquilo que você faz e gosta também é bom.

pra não sucumbir ao pânico nervosismo, antes, fiz tudo devagar e organizei o quarto, e respirei, e saí, vi as coisas, as pessoas, vivi no presente (como não vivo agora); pensei que não queria ficar elocubrando e sim prestar atenção às coisas que aconteciam ao redor. foi muito presentificante.

no depois da aula, ainda no mesmo processo voltei pra casa, aí vi: "os fios do urucúia". acho que se não tivesse presente o dia inteiro, nunca teria prestado atenção àquela exposição que estava no meio do caminho. como ela deve ter estado há vários dias no meio do caminho e só hoje vi. conhecendo a palavra por causa dos sertões roseanos, senti uma palpitação: que lindo, o sertão veio pra beira do mar! se a montanha não vai ao sertão, o sertão vai à montanha! e veio. é claro que eu ia encontrar uma citação de rosa: encontrei. "o sertão é dentro da gente". e hoje ia sair com a camisa com outra citação: "pão ou pães é questão de opiniães". mas sujei de feijão, no almoço. feijão ou feijães, deixei em casa, troquei, mas rosa me encontrou depois!

29.6.09

cão pode só ser, não é?

e por que a gente tem essa preocupação de descobrir o que é ser, o que ser eu, em vez de só ser? uma das coisas DOADAS ao ser humano (e ninguém pediu).
"o cão é o mistério livre que não se indaga" (adaptado da CL)

tenho uma pergunta macabeica: ser feliz é pra quê?

mas cão nem macabéa podem negociar com a morte:

que triângulo ou círculo poderá cercar-te
para que te detenhas demorada e minha
para que não desças toda pela escada

(sophia de mello breyner andresen, "morte")
estou sofrendo com a clarice e a sophia.

é que tinha feito notações antigas e agora não entendo mais nada do que entendia quando escrevi ou quando me referi a numerações de páginas.

é que tento restringir um campo de atuação a sophia, mas ela engloba, em cantos ditirâmbicos, muito mais do que antevia (afinal é clássica e anti-clássica [vilma arêas]). como:
a visão vertical do tempo: ok, passado é presente através do poder presentificador da memória, mas o futuro não atua nesse bololô de instante já. sempre um dia haverá um dia liso, e

um dia emergiremos e as cidades
da equidade mostrarão seu branco
sua cal sua aurora seu prodígio.
ela também vê o tempo como linear, ora bolas, é lógico que khronos existe e é imbativel, de modo que o futuro é implacável (ou incerto, porém exato no final), a não ser por uma sujeirinha:

mais tarde será tarde e já é tarde.
o tempo apaga tudo menos esse
longo indelével rasto
que o não-vivido deixa.

(...)
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
do teu próprio passo

e, veja, no fim sophia me responde tudo, como qualquer oráculo - horácio - pré-pós-per-socrático:

pudesse eu não ter laços nem limites
ó vida de mil faces transbordantes


12.5.09

colocando-se no centro, determinando a existência de um centro, o ser humano se compraz na infirmação da excessividade do real, precisamente porque lhe apraz a confirmação da validade genérica de sua humanidade. assim se apreende a razão por que a vida se compreende como a vida humana, que se temporaliza historicamente na biografia dos deuses que se humanizam e dos homens que se divinizam. a vida em si mesma é a vida percebida como Zöe, a vida ritmada na coalescência dionisíaca de sua excessividade como matriz abissal da totalidade do real (...)


RMS

10.3.09

maçã no escuro conhecido do inferno.

hein, gente,

depois de umas férias lendo umas bobagens contemporâneas cheias de orações coordenativas, voltei ao romance enrolado e suculento de lobo antunes (tá andando, finalmente!) e de clarice lispector.

o lobo antunes tem uma coisa que eu acho sensacional, de que gostava em luandino, ou clarice, ou sophia, ou manoel de barros, ou pessoa: você fica se DELICIANDO em cada frase. então não tem importância não avançar as páginas. é como se fosse um orgasmo em cada oração. então você lê de novo e de novo e de novo. e não adianta dar uma de espertinho e querer pular pra umas frases adiante, porque tem algo interessante - você vê, de rabo-de-olho - no final do parágrafo: é só voltar e se descobre um poeminha em duas ou três orações subordinadas cheias de comparações e metáforas, um poeminha micro, cheio de vígulas, palavras repetidas, misturas de situações e lugares - vai da cama do hotel, ao hospital psiquiátrico, à guerra angolana em 3 palavras (um pouco mais, já que a sintaxe lusitana é... bem... lusitana). pra completar, o cara ainda ouve gal costa e paul simon no toca fitas do carro.

gosto tanto do teu peito, pensou a ultrapassar um tractor com uma criatura empoleirada a estremecer no topo, a vibrar no topo à laia de um soldado de chumbo sem vida, gosto tanto do teu peito, do bico duro das tuas mamas e do espaço cavado e tenro que as separa, dos arames de fusíveis do púbis que encontro, enrolados, na banheira, e dos dedos dos pés bons de morder, de chupar, de lamber enquanto a tua cara se torce de cócegas ao longe, a dizer que não, de olhos fechados, na planície em desordem dos lençóis.


"quando foi que me fodi" de os cus de judas se transforma em

- o que faço eu aqui?
como pensara no ginásio do qualtel em Elvas
- o que faço eu aqui?
como pensava às vezes em certos bares, certas boîtes, certos jantares, certas reuniões de inteligentes opiniosos.
- o que faço eu aqui?
escutando em silêncio, num canto do sofá, a veemência jem parafuso dos seus argumentos, como pensava
- o que faço eu aqui?
no Harry's de Albufeira, a deixar escorrer o sumo azedo da quinta cerveja no interior do copo, (...)

o "quando foi que eu me fodi?" se transformando lentamente no desejo um cigarro um cigarro um cigarro na trippy inteligência narrativa intrapsicológica - e, em se tratando de um psiquiatra, onde mais poderia se passar um romance desses -, com todos os seus multiperspectivismos e múltiplas personalidades

- sou médico

do mesmo modo que as crianças repetem

- sou crescido

ao atravessarem os corredores sem luz, transidas de dúvidas e de pavor.


e é nesse silêncio para o lado de fora para equilibrar a balbúrdia do lado de dentro que o narrador antuniano está junto a martim, com sua maçã pulsando no escuro, durante a gestação de um corpo livre.

a maçã no escuro de clarice - ou pelo menos, a primeira parte: "como se faz um homem" - é um livro do sono e do silêncio, da bruma da noite, da respiração da terra, da secura do dia e do caminho ao mar (e para onde mais caminha a literatura em língua portuguesa, desde as cantigas medievais?).

sem mapa, conhecimento ou bússola - embrenhara-se terra a dentro. (...) como se qualquer caminho terminasse fatalmente em costa aberta, o que era uma verdade, mas difícil de ser atingida por pés;

ele pensou como o meu país é triste aonde o mar não chega, nocturno mesmo que ao sol, sombrio ainda que de dia aonde o mar não chega, cemiteriozitos em que os mortos, despenteados, giram nos labirintos das cruzes em busca de uma saída impossível (...)







e daí a serem os dois romances relatos de homens andando, de homens respirando, de homens perdidos. clarice sendo clarice desde sempre - mesmo depois da carta de fernando sabino pedindo que abandonasse a prosa em 1ª pessoa. antónio (ô agudeza de acento tão bonitinha! o que fizeste, ó, unificação das grafias portuguesas?) terminando de expurgar seu relato pós-guerra e sua auto-internação no hospital miguel bombarda, onde

escrevi poemas e romances que não publico nunca, dói-me um siso de cima e vou ser psiquiatra, entender as pessoas, perceber o seu desespero e a sua angústia, tranquilizá-las com o meu sorriso competente de sacerdote laico manejando as hóstias das pastilhas em eucaristias químicas (...)




de modo que vocês devem ler primeiro a maçã no escuro para achar que vocês estão sem linguagem e fadados a cair na depressão. depois leiam conhecimento do inferno para ter a certeza de que os psiquiatras estão piores que vocês.

(vou dar um pra minha psicóloga e um pra minha psiquiatra)

20.2.09

Fernanda diz:
hoje eu matei uma barata
Fernanda diz:
olha que coisa... nunca mato nada
Fernanda diz:
haha
Fernanda diz:
aí a galera tava falando...
Fernanda diz:
ai porque barata, que nojo, e tal, tem que arranjar um jeito de exterminar tudo da terra
Fernanda diz:
aí eu falei: gente, mas é a gente que tá construindo concreto em cima das casas dela
Fernanda diz:
tá certo, elas têm que invadir mesmo;
Fernanda diz:
mas eu fui lá e matei
Dree diz:
hahahahaahahah
Fernanda diz:
porque nem adianta eu salvar aquele bicho, né...?
Fernanda diz:
ele volta
Dree diz:
mas é lei da sobrevivência..barata transmite MUITA doença
Fernanda diz:
matei com um livro da virginia woolf
Dree diz:
meu irmão biólogo já me explicou
Dree diz:
lá em casa a gente só mata barata e rato
Fernanda diz:
pois é, eu também já perguntei isso
Dree diz:
lagartixa, por exemplo, a gente pega e taca na varanda
Dree diz:
gente, vc usou um livro da virginia pra matar uma barata?!??
Dree diz:
clarice ia adorar isso
Fernanda diz:
não ia ser sensacional se eu matasse a barata com "a paixão segundo gh"?

24.1.09

água viva

"E depois de uma tarde de 'quem sou eu?' e de acordar a uma hora da madrugada em desespero, eis que as três horas da madrugada eu acordei e me encontrei. Simplesmente isso. Eu me encontrei. É lindo. É vasto. Vai durar. Eu sei mais ou menos o que eu vou fazer em seguida, mas por enquanto, olha pra mim e me ama. Não. Tu olhas para ti e te amas. É o que está certo." (C. Lispector)

15.11.08

deus fez o mundo em sete dias porque não tinha ninguém enchendo o saco, perguntando quando ia ficar pronto.

eis que eu voltei antes do que esperava.
mas é que tô numa segunda lua-de-mel com sophia, aí vim aqui pesquisar umas coisas e tal.
e deixar aqui estas anotações:
vocês sabem dos meus preconceitos com essa gente de letras que tenta escrever literatura. tudo é vanguarda-envelhecida. é muito autoconsciente, no pior dos sentidos, sempre tentando ser genial. desconstruir tudo até não sobrar fiapo. não é que nem o rosa que só pode inovar tudo o que inovou porque tinha uma narrativa que é uma historinha muito bem amarrada e perfeita, com encadeamentos. ninguém é como rosa, né? parei. acho o rosa maior que o machado de assis, que a clarice lispector, que todos.

22.6.05

dez de dezembro.


A Verdade é: sempre foste morta. Só eras quando eram os teus personagens. Fora deles, nenhum sopro exasperado. Quando foi o teu corpo? - tuas bonitas mãos e olhos amendoados e teu inquieto cérebro? - no cemitério São João Batista, dentro de uma caixa preta com uma estrela. Chorei, vinte e sete anos depois. Era, enfim, A Hora da Estrela, em ti imortalizada. Aquela estrela, porém, não era tua; sempre a condenaste. Nada foi teu. Hoje é de museus, bibliotecas, estantes. No entanto, tudo o quanto quiseste, para que não morresses, é assustadoramente teu.
Ter muitos amigos não significa estar livre de solidão. E estar sorrindo, querida, não significa ser feliz.
"Ser feliz é pra quê?" Comer cachorro-quente e coca-cola e sonhar com o dia de deixar de ser uma subnutrida, sonsa e idiota? Pra quê?
Ser feliz é como?
Onde estivestes de noite? sempre morta. Esquecendo tudo aquilo que os atos te ensinaram.
Quando é que, entre as palmeiras do Jardim Botânico, entre os pequenos cérebros roxos que caíam das árvores, foste feliz? Iluminaste-se?
Ser feliz é quando?
Nas tuas residências diplomáticas, quando é que paraste de desejar estar em outro lugar?
Ser feliz é onde?
Que mendigo, que Macabéa, que Álvaro de Campos não invejaste só por não serem tu?
Ser feliz é quem?
Que substantivo melhor designa a catástrofe de tua infeliz vida?
Ser feliz é o quê?

[9.12.2004]