de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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18.8.14

ao longe os barcos de flores

viajar dentro do rio, como se o rio finalmente deixasse de ser aquela paisagem de cenário - pano de fundo que não se mexe. e então essa cidade - a que chego vinda do Sul - se abre para a noite, e às vezes estou presente, e às vezes estou ausente.

exemplo:

presente:
este é o tejo, que serve para um monte de coisas, inclusive para segurar a ponte 25 de abril de um lado ao outro lado e guardar o sol que se pôs.

ausente:
aqui é a baía de guanabara, que atravesso para nada, pelo gosto de ir, e a outra cidade, que me espera de volta, abre os braços por cima de mim sem perguntar o que fui fazer fora.

presente:
penso "estou com frio" e digo "estou com calor", como se o texto oficial que emito só pudesse, maoisticamente, dizer o que desejo e não o que é.

ausente:
"ai que frio" no Rio, inventando noites nórdicas quando tudo o que sinto é um calor que cria uma capa de suor, como uma segunda pele, uma casca.


7.10.12

estava com saudades de viajar sozinha, ficar sozinha com os meus pensamentos, me alegrar ao ver uma coisa e poder lá ir, sem ser escrava do tempo.

o problema é que às vezes eu só consigo re-pensar no que eu já tinha pensado: como eu gosto de viajar de costas no comboio à hora de partir; parece que olhando para onde você veio, você não perde a experiência, faz aquilo durar um pouco mais. mas antes eu me sentava de costas e continuava a ver lisboa, até que não sei como, não sei por quê, chegava a cascais de costas.


Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar.
[eugénio de andrade]

hoje eu vi o mesmo, mas por outra perspectiva, ou seja: vim de frente pra cascais, de costas para a lisboa dos meus sonhos. foi muito diferente, já que em vez "da cidade a que chego se abrir como se do seu nome nascesse", o que ficava quase estático, mas com um movimento parecido com o dos discos voadores, que ora piscam num lugar ora noutro, era o farol do meio do tejo. aí me veio daquelas sensações: ("o que vejo a cada momento é aquilo que eu nunca antes tinha visto"): passei tanto tempo ignorando essa perspectiva... e agora me parece tão especial... (não sei, algo assim)

a gente precisa passar por essas situações: "o quarto mais barato que tivessem". arranjei um hostel de 12 euros num lugar um pouco sinistro de lisboa. mas na boa: a equipa, composta inteiramente de homens, está me bajulando que só, entre uns brasileiros e outros xarás, eu faço assim: conto com a sorte de terem me dado um quarto em que não tinha mais ninguém, e que seria exclusivamente de mulheres (mal sabem eles...). mas é só ladeira e aqueles pedregulhos que nego chama de calçada portuguesa (e essa civilização que aqui não chega?). 

estou descansada. vou.

8.5.12

quando exu virá eu ponho a cachaça pra ele

hoje teoricamente recebi uma notícia ruim, mas estou com vontade de dizer: 
eu nem queria mesmo.
fora isso eu quase quebrei o pé de novo,  mas é bom que me dá impulso de fazer uma cirurgia. e cirurgia, todos sabem, é tempo de ler a bibliografia inteira pro doutorado.

finalmente ouvi uma resposta dela, se é que isso importa. é que já ultrapassei a barreira da vergonha de parecer querer demais, é que agora nem faço questão de querer - se ela estiver comigo parabéns, se não foda-se, a vida é assim mesmo.

o portella desfilou uns 300 mils (MILS) preconceitos na aula: entre eles afirmar aquele mito do carioca preguiçoso, calcado na cultura do "tô nem aí". fico querendo mandar esse povo pra morar em caxias e pegar av. brasil* todo dia pra chegar ao trabalho, gastando mais de 10 reais em condução e ganhar um salário mínimo que não dê conta nem do miojo.

uma música para o ópio do povo:




*botei no google pra ter certeza de que não tava a falar besteiras.

8.10.11

evocando sophia - em todas as viagens

nos teus límpidos olhos de vidente
as paisagens reflectem-se mais fundas
imóveis entre os gestos da corrente.
[sophia de mello breyner andresen.rio]

preparava-me eu para escrever algumas linhas, poucas páginas (a cota diária: 3) sobre a poesia que decidi estudar. e uma criança mais nova do que o meu projeto de mestrado se prepara para mergulhar na água. o nome dela é sophia.


pra minha imperfeição está suspenso
em cada flor da terra um tédio imenso. 
todo milagre, toda a maravilha
torna mais funda a minha solidão
e todo o esplendor pra mim é vão
pois não sou perfeição nem maravilha. 
[id.pra minha imperfeição...]


17.9.11

gente do céu, do mar, da terra, do fogo e do vento

meu deus, estou tão cansada. maranhão moeu minhas letras. 

estou aqui desde que acordei pra digitar um fragmento de nietzsche sobre a percepção das cores pelo povo grego antigo. a tarefa é hercúlea, é interrompida, torço para "ouvir o poema todo, e não só um fragmento", como também espera a sophia.

penso a todo tempo num poema que sophia dedica a pessoa quando aporta nas terras gregas, transporto isso para o estado do maranhão. penso que o destino da sophia "deveria ter passado nesse porto/ onde tudo é impessoal e livre/ onde tudo é divino/ como convém ao real". nos lençóis maranhenses pensei mesmo ser a primeira presença inicial e limpa, num ambiente sem interferência do homem, sem sinal nenhum de habitação. como se fosse outro planeta, inabitado, ou habitado só por areias, céu, águas, enormes.

dedico, agora, o poema de sophia a ela mesma. penso que ela me ouve, como a presença de um deus animista, peço para que me ouça e lá esteja, no vento que levanta as areias. de modo que, provavelmente, na morte ela se consubstanciou ao universo, se uniu totalmente a esse mistério natural dos elementos, justamente como ela precisava que fosse.

ave, sophia.

5.7.11

things we look back on and they take over


não venho mais acompanhando a obra de tori amos - aliás eu vi hoje no wikipedia que ela lançou dois álbuns dos quais nunca tinha ouvido falar na vida, parece que um é de natal.

mas como escrevi aqui em 2007: uma das grandes vantagens de haver artistas como tori amos e virginia woolf é a extensão de suas obras. mas exatamente por isso, nunca se dá a devida atenção a tudo. por outro lado, conhecendo-as aos poucos, quando se concentra em uma coisa só vale muito a pena.

nessa, eu resolvi descobrir os b-sides (quando a indústria da música tinha disso) do under the pink, um dos títulos mais geniais/geniosos da tori. e foi pelos títulos que eu fui procurando as músicas no youtube: "black swan", "home on the range", "all the girls hate her/over it".

se a maior parte de american doll posse ou algumas músicas em abnormally attracted to sin eram extremamente puláveis, comecei a considerar a ideia de pensar em todos os b-sides como um álbum só.

mas o mais impressionante sobre essa jornada é olhar para trás, para os momentos em que essas canções me acompanharam, e notar: i was here. o sentimento de plenitude olhando o prado, as folhas outonais que mencionei uns posts atrás, memórias que a gente olha com carinho e que se fazem presentes, se instalam com totalidade no presente. a poeira dourada que um dia se tem em mãos é o tempo. e não adianta segurar, poeira se esvai. mas nos permeia. "how did it go so fast?"/ "i was here". sentir tudo de novo, pela vigência da memória. e música é uma dessas coisas que nos transporta pra outros tempos.


11.1.11

meu coração é um almirante louco aposentado demitido

eu sonhei que chegava a alguma Verdade sobre a poética da sophia, em meio à confecção do meu trabalho de fim de curso/capítulo de monografia. devo ter sonhado, não sei, tudo parecia claro-cristalino, e tudo o que eu pensara antes era mentira reiventada dos artigos por aí... e agora esqueci.

mas don't it always seem to go
that you don't know what you got 'till it's gone?

há tempos samuca recomendou esta ferramenta do google (eles mapeiam tudo, meu deus...), e foi só lendo o resgaste dela pelo rafa que eu dei valor... resolvi procurar mar e terra e descobri que as pessoas gostam mais de ficar do que viajar...

20.12.10

viagem através duma nebulosa

agora não se lambuzam mais os dedos naquela tinta de carimbo pra imprimir suas digitais. há um sistema de captação digital de digitais e isso nunca dá certo pras minhas mãos porque meus dedos são meio suados e molhadinhos (sei lá).

o que vale é que passei um sábado no aeroporto, talvez mais triste porque essa viagem vai mesmo acontecer - e não ter passaporte era uma pequena chance de eu poder cancelar [cancelar - outro dia, na revista d'o globo, vi um psicanalista {entre aspas?} usar cancelar no sentido de "interditar", "impedir". achei bonito: "e cancelou todas as suas experiências amorosas"]. aeroporto, como aquela estação de trem do encontros e despedidas é uma coisa que ou traz muita alegria, do encontro, ou dá muita dor, da separação.

no caso, eu tinha dor de irritação de estar lá pela 3a vez tentando arranjar um passaporte, e não estando lá pra viajar.

aproveitando que vou semi viajar e semi empacotar minhas coisas todas de novo, sem saber se vou ficar nesse mesmo apartamento em abril, vejo que a gente nutre uma prateleira que se conceitua por ser a prateleira da esperança. ela se compõe daquelas roupas quiçá com cara de novas, porque pouco usadas, mas idosas, que não cabem mais mas você JURA que vai guardar porque um dia vai emagrecer e caber naquilo de novo. vocês sabem do que eu tô falando, né? não importa se você tinha 14 anos da última vez que coube nessa calça. você ainda acha que vai caber, que só falta um pouquinho...

pois eu tenho alguns shorts e calças nessa situação. mas eu prometo que nessa vindoura arrumação de armário eu me desfaço deles... porque hoje eu acordei revolucionária e até redecorei o meu quarto!

12.6.09

mendes

da infância: parede pela metade com janela, frio de rachá-la e a chuvinha pontuando o girar de clube da esquina. come tangerina guiúguiú deixando os bagaços. a consciência de que a cena ficará guardada em algum lugar pra ser pinç[el]ada dali a dezessete anos. eu devia saber viver, mas sabê-lo não era importante, então eu só vivia.

20.2.09

queer matters

eu tenho a ligeira impressão de que meus amigos estão tentando me arranjar uma parceira. depois de anos PEDINDO pra eles me arranjarem um par, agora eles fazem isso até inconscientemente. acho que cheguei na idade em que preciso acompanhar meus amigos com uma dupla. e estou até querendo isso, sério. mas, segundo a frô, não sou casável. abre-se a enquete:

- eu sou casável?

[ ] sim

[ ] não

de repente, em algum lugar entre como eu me mostro e como quero ser vista, eu tô deixando escapar uma vibe "não sou de ninguém". isso me levou a acreditar que meu destino é ser monja. outra enquete:

devo virar uma meditadora vipassana-full-time?

[ ] sim

[ ] não

de modo que talvez eu não seja, mesmo, de ninguém, seja de todo mundo, sirva pra fazer suíngue enquanto a galera fica se enfiando em um casamento após o outro... talvez eu seja aquela que - como pararraio (aê reforma!) de maluco - fica com a parte rebounce dos relacionamentos, só pegando quem tá na merda logo depois de terminar um relacionamento traumático, enquanto eles não tão preparados para, e nem querendo, namorar de novo.

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enquanto isso...

dois de meus grandes amigos acabam de protagonizar a primeira união civil gay dentre pessoas que conheço. eles queriam, mesmo, era casar no dia em que começaram a ficar, dia de são valentim - 14 de fevereiro. e a califórnia comemorava o aniversário de algum morto aleatório. assim, não conseguiram oficializar a união no dia que queriam. mas agora - à parte da imbecilidade da proposition 8 - estão casados.

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e fui chamada de lesbian cliché ontem. ou bissexual cliché: toda bi é vegetariana, faz yoga, feng shui, acredita em astrologia. em san fran eles me entenderiam.

8.2.09

da multiplicação dos pães ou: como fazer uma bolsa de 300 reais pagar todas as coisas que têm preço

desde que me vieram essas confirmações de bolsas de iniciação científica e monitoria, estive pensando em save up para:

- comprar um violoncelo.
- pagar minhas dívidas a minha mãe.
- viajar pelo brasil, em comemoração pela minha formatura.
- comprar o violão de aço da dree.
- visitar o cristóbal em santiago, em comemoração à minha formatura (e ficar lá uns 2 meses).
- ir para a índia, já que estamos comemeorando minha formatura em 2009/2, e já cheguei na idade de escrever um supposed (sem ter ganhado a grana de vendas do jagged little pill).
- comprar um celular através do qual as pessoas me ouçam.
- consertar minha flauta e meu violão.

me ajudem aí a escolher as prioridades... por enquanto estou com a ÍNDIA.

24.12.08

NÃO CONSIGO DORMIR!!!!!!

8.12.08

vida loka vida

já estou me sentindo de férias. era pra acabar tudo hoje, mas como só falta a monografia do meu curso preferido e uma prova de monitoria, todo esforço acadêmico que eu fizer será pura diversão...

gente, que gás que estou! compensou ter estado lesa pela metade do ano! :)

o fundão já tava parecendo um resort - aqueles campos são feitos pra um circuito de golf - nesse soleil. verãozão, tudo vazio, só restaram umas pessoas, já desestressadas com o fim do período, colhendo os seus frutos.

acho que vou até dispensar a terapia essa semana, depois de uma sessão de hora e meia com a cinda - minha orientadora que SUPEROU a psicanálise.

daí cheguei em casa e comecei a preparar minha monografia de final-de-curso da letras, vai ser uma coisa bem infância, de manoel de barros...

nasceu uma escritora!