de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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10.3.09

maçã no escuro conhecido do inferno.

hein, gente,

depois de umas férias lendo umas bobagens contemporâneas cheias de orações coordenativas, voltei ao romance enrolado e suculento de lobo antunes (tá andando, finalmente!) e de clarice lispector.

o lobo antunes tem uma coisa que eu acho sensacional, de que gostava em luandino, ou clarice, ou sophia, ou manoel de barros, ou pessoa: você fica se DELICIANDO em cada frase. então não tem importância não avançar as páginas. é como se fosse um orgasmo em cada oração. então você lê de novo e de novo e de novo. e não adianta dar uma de espertinho e querer pular pra umas frases adiante, porque tem algo interessante - você vê, de rabo-de-olho - no final do parágrafo: é só voltar e se descobre um poeminha em duas ou três orações subordinadas cheias de comparações e metáforas, um poeminha micro, cheio de vígulas, palavras repetidas, misturas de situações e lugares - vai da cama do hotel, ao hospital psiquiátrico, à guerra angolana em 3 palavras (um pouco mais, já que a sintaxe lusitana é... bem... lusitana). pra completar, o cara ainda ouve gal costa e paul simon no toca fitas do carro.

gosto tanto do teu peito, pensou a ultrapassar um tractor com uma criatura empoleirada a estremecer no topo, a vibrar no topo à laia de um soldado de chumbo sem vida, gosto tanto do teu peito, do bico duro das tuas mamas e do espaço cavado e tenro que as separa, dos arames de fusíveis do púbis que encontro, enrolados, na banheira, e dos dedos dos pés bons de morder, de chupar, de lamber enquanto a tua cara se torce de cócegas ao longe, a dizer que não, de olhos fechados, na planície em desordem dos lençóis.


"quando foi que me fodi" de os cus de judas se transforma em

- o que faço eu aqui?
como pensara no ginásio do qualtel em Elvas
- o que faço eu aqui?
como pensava às vezes em certos bares, certas boîtes, certos jantares, certas reuniões de inteligentes opiniosos.
- o que faço eu aqui?
escutando em silêncio, num canto do sofá, a veemência jem parafuso dos seus argumentos, como pensava
- o que faço eu aqui?
no Harry's de Albufeira, a deixar escorrer o sumo azedo da quinta cerveja no interior do copo, (...)

o "quando foi que eu me fodi?" se transformando lentamente no desejo um cigarro um cigarro um cigarro na trippy inteligência narrativa intrapsicológica - e, em se tratando de um psiquiatra, onde mais poderia se passar um romance desses -, com todos os seus multiperspectivismos e múltiplas personalidades

- sou médico

do mesmo modo que as crianças repetem

- sou crescido

ao atravessarem os corredores sem luz, transidas de dúvidas e de pavor.


e é nesse silêncio para o lado de fora para equilibrar a balbúrdia do lado de dentro que o narrador antuniano está junto a martim, com sua maçã pulsando no escuro, durante a gestação de um corpo livre.

a maçã no escuro de clarice - ou pelo menos, a primeira parte: "como se faz um homem" - é um livro do sono e do silêncio, da bruma da noite, da respiração da terra, da secura do dia e do caminho ao mar (e para onde mais caminha a literatura em língua portuguesa, desde as cantigas medievais?).

sem mapa, conhecimento ou bússola - embrenhara-se terra a dentro. (...) como se qualquer caminho terminasse fatalmente em costa aberta, o que era uma verdade, mas difícil de ser atingida por pés;

ele pensou como o meu país é triste aonde o mar não chega, nocturno mesmo que ao sol, sombrio ainda que de dia aonde o mar não chega, cemiteriozitos em que os mortos, despenteados, giram nos labirintos das cruzes em busca de uma saída impossível (...)







e daí a serem os dois romances relatos de homens andando, de homens respirando, de homens perdidos. clarice sendo clarice desde sempre - mesmo depois da carta de fernando sabino pedindo que abandonasse a prosa em 1ª pessoa. antónio (ô agudeza de acento tão bonitinha! o que fizeste, ó, unificação das grafias portuguesas?) terminando de expurgar seu relato pós-guerra e sua auto-internação no hospital miguel bombarda, onde

escrevi poemas e romances que não publico nunca, dói-me um siso de cima e vou ser psiquiatra, entender as pessoas, perceber o seu desespero e a sua angústia, tranquilizá-las com o meu sorriso competente de sacerdote laico manejando as hóstias das pastilhas em eucaristias químicas (...)




de modo que vocês devem ler primeiro a maçã no escuro para achar que vocês estão sem linguagem e fadados a cair na depressão. depois leiam conhecimento do inferno para ter a certeza de que os psiquiatras estão piores que vocês.

(vou dar um pra minha psicóloga e um pra minha psiquiatra)

13.11.08

só uma satisfação

então luandino não veio, estou aqui penando com esse trabalho-idéia-de-jerico, levando porrada do ramon no buddypoke e me correspondendo muito com as pessoas por e-mail (tentando descobrir qual é a da literatura contemporânea brasileira - torcendo o nariz pra luiz ruffato). várias coisas bizarras eu tenho presenciado nas ruas, mas não anoto, daí esqueço tudo. então vou ficar mais um tempo sem aparecer, pelo menos até 2a. :)