pelo menos o homem em coma, feito pedra, tem alguém que lhe cuide, incessantemente. eu sou feita penha-penhasco, precipitando o abismo, perplexa em abandono. quem é que está sobre meu leito? só tenho quem chore à distância, por sobre a cova, nenhum que tenha estado pacientemente ao lado.
a vida é assim, amigos-da-onça, é muito dura de se enfrentar sozinho (com o mito de que se está na multidão). e sozinhos estamos sempre, até a morte inexorável; não há novidade em termos de morrer desacompanhados.
(meu primeiro passo para a solidão, antes do desencarne, é ter essa consciência, morando sozinha e tentando resolver tudo por mim, mobilizando o mínimo possível o destino alheio. nessa destituição de ego, procuro aprender a pedir ajuda sem me sentir culpada, ou atrapalhando, ou exonerando.)
e o que fazem é querer me dopar, a enfiar-me agulhas com anestésicos, tudo fruto de uma sociedade doente na raiz, que não sabe lidar com a dor. então etiquetam-me de acordo com a intensidade da dor - como se a real dor pudesse ser medida - e visto uma pulseira verde como os verdes campos a mim vetados, porque frequento hospitais de luz fria, corredores verde-doença.
o que me fazem é trocar meu sangue por esse líquido incolor, não sei se tentam me tranquilizar ou me drogar, simplesmente. mas resisto, bravamente, porque estou sozinha, e a droga que me enfraquece o sangue vigoroso acende a indignação. insurjo-me contra me deixarem num canto qualquer, numa cadeira esterilizada em meio à sujeira semi-aparente.
etiqueta verde campo numa mão, líquido verde-morte na outra, espero o diagnóstico que me porá mais uma vez imóvel.
a vida é assim, amigos-da-onça, é muito dura de se enfrentar sozinho (com o mito de que se está na multidão). e sozinhos estamos sempre, até a morte inexorável; não há novidade em termos de morrer desacompanhados.
(meu primeiro passo para a solidão, antes do desencarne, é ter essa consciência, morando sozinha e tentando resolver tudo por mim, mobilizando o mínimo possível o destino alheio. nessa destituição de ego, procuro aprender a pedir ajuda sem me sentir culpada, ou atrapalhando, ou exonerando.)
e o que fazem é querer me dopar, a enfiar-me agulhas com anestésicos, tudo fruto de uma sociedade doente na raiz, que não sabe lidar com a dor. então etiquetam-me de acordo com a intensidade da dor - como se a real dor pudesse ser medida - e visto uma pulseira verde como os verdes campos a mim vetados, porque frequento hospitais de luz fria, corredores verde-doença.
o que me fazem é trocar meu sangue por esse líquido incolor, não sei se tentam me tranquilizar ou me drogar, simplesmente. mas resisto, bravamente, porque estou sozinha, e a droga que me enfraquece o sangue vigoroso acende a indignação. insurjo-me contra me deixarem num canto qualquer, numa cadeira esterilizada em meio à sujeira semi-aparente.
etiqueta verde campo numa mão, líquido verde-morte na outra, espero o diagnóstico que me porá mais uma vez imóvel.