acho que sei por que não tô sintonizando muito com esse ensaio que tô fazendo. acho que até agora só fiz trabalho sobre "belos sentimentos". agora que eu peguei um livro - meio expressionista, diga-se, pela manifestação de elementos angustiosos - de indiferença, medo, escolhas existenciais, assassinato, prisão e exclusão sinto essa impossibilidade de escrever. é impossível escrever, porque "nem só de belos sentimentos é feita a literatura", como diria gide.
isso já me aconteceu antes: quando tinha de escrever sobre ensaio sobre a cegueira, anos antes, não fiz o trabalho - parcialmente porque estava num momento depressivo em que não conseguia concretizar nada, só ficar boiando no não-feito e na "vida que poderia ter sido e que não foi". a cegueira é um livro sobre essa imobilidade, sobre a incapacidade de reter as coisas a partir do real do mesmo jeito a que somos acostumados. a criatividade deve, então, se abrir - eu devia arranjar um outro jeito de me aproximar daquele texto que era tão isomórfico com a minha situação real. li o camus, e sou tão meursault que eu não me importo realmente com as questões que são abordadas racionalisticamente - como num romance de tese - em o estrangeiro. como transpor isto?
o que é a indiferença? o que é ser moral? o que é a relação com o outro? meu gosto para a literatura é uma coisa, admito, muito umbiguista (é confissão entre um eu e um logos).
sabia que o
rafa já tinha escrito um texto sobre o camus e fui lá procurar. era sobre
a peste, mas tem tudo a ver com a minha procura fundamental por coisas unidas - e não partidas, como o sofrimento - na arte:
"chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura”.
a questão é que não quero fazer da arte, e dos meus ensaios inspirados por ela, um escape, uma concepção exclusivista da beleza e da unidade, mas uma solução para encontrar essa metade de mim que fica perdida por aí.