estava com saudades de viajar sozinha, ficar sozinha com os meus pensamentos, me alegrar ao ver uma coisa e poder lá ir, sem ser escrava do tempo.
o problema é que às vezes eu só consigo re-pensar no que eu já tinha pensado: como eu gosto de viajar de costas no comboio à hora de partir; parece que olhando para onde você veio, você não perde a experiência, faz aquilo durar um pouco mais. mas antes eu me sentava de costas e continuava a ver lisboa, até que não sei como, não sei por quê, chegava a cascais de costas.
Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar.
[eugénio de andrade]
hoje eu vi o mesmo, mas por outra perspectiva, ou seja: vim de frente pra cascais, de costas para a lisboa dos meus sonhos. foi muito diferente, já que em vez "da cidade a que chego se abrir como se do seu nome nascesse", o que ficava quase estático, mas com um movimento parecido com o dos discos voadores, que ora piscam num lugar ora noutro, era o farol do meio do tejo. aí me veio daquelas sensações: ("o que vejo a cada momento é aquilo que eu nunca antes tinha visto"): passei tanto tempo ignorando essa perspectiva... e agora me parece tão especial... (não sei, algo assim)
a gente precisa passar por essas situações: "o quarto mais barato que tivessem". arranjei um hostel de 12 euros num lugar um pouco sinistro de lisboa. mas na boa: a equipa, composta inteiramente de homens, está me bajulando que só, entre uns brasileiros e outros xarás, eu faço assim: conto com a sorte de terem me dado um quarto em que não tinha mais ninguém, e que seria exclusivamente de mulheres (mal sabem eles...). mas é só ladeira e aqueles pedregulhos que nego chama de calçada portuguesa (e essa civilização que aqui não chega?).
estou descansada. vou.