de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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24.1.15

não sei o que hei de fazer com esses sonhos superados
o meu sonho dourado de ontem era outro
o de hoje não vai acontecer
e o de amanhã há de ser diferente, não sei como não lhes partir
até que se tornem a poeira de sempre das cidades

alguém disse - o que sou é terem
vendido a casa (no meu caso alugado, na grande
especulação imobiliária) - sei que não volto pra lá
mas talvez eu precise

talvez eu não fique
com essa pose de Alberto Caeiro escrevendo
na lixeira de recicláveis como se fosse uma escrivaninha de madeira
talvez eu nunca posasse
nem quando estivesse na livraria do manuel de freitas,
rua dos correeiros 60, 1o esquerdo
o verdadeiro universo paralelo (w)
onde me sinto um peixe fora d’água sem a menor condição de me estabelecer

aliás é essa a discussão que tenho muitas vezes com minha namorada
essa minha capacidade de ser inútil
e de o meu trabalho ser uma pose
o doutorado ser um devaneio intelectualoide

engraçado é eu ainda ficar chateada
depois te tantos livros declarando que a poesia é inútil
eu ainda ficar espantada
e tentar dizer que não
depois de séculos de a república estar estabelecida
depois de eras da expulsão do poeta da pólis ideal

pressinto que a pólis nunca fora isto, ideal
e agora então, olha, tá muito longe disso
mas mesmo quando caminho entre os colchões sujos dispostos
na calçada
morta de medo
de ser assaltada, ou ter uma
seringa com crack atravessada na minha aorta

penso em que caralhos esses poetas tavam pensando
quando tatearam justamente    da melhor maneira possível
a cidade justa ideal e limpa

eles não conheciam os homens
ou só posavam de balança?

4.11.14

start ou: por não saber onde guardar

explicou ao crisóstomo que a um dado momento era preciso amar sem olhar a quem. quando se espera uma vida inteira, perdem-se as exigências e tudo se torna muito geral. (...)

quero a mulher que fala sozinha com a areia e o mar, a que veio ao meu encontro exato. a isaura sentiu que estava triste e feliz ao mesmo tempo.
ela perguntou: podes repetir.
ele disse: amo-te, isaura.
subitamente, metade das coisas pareciam compostas.

(valter hugo mãe, o filho de mil homens)

18.8.14

GAME OVER

O corpo.
Uma duração precisa,
que se despede informalmente
nos beijos que já não dá.
Ó meu bom Jesus de Braga,
eu não saberia como ficar,
remendando os dias
com o apressado amor das coisas.

Tudo finalmente finda.
Na calamidade das mãos,
um cigarro que arde impróprio
sobre as manhãs exaustas.
E ninguém me quis,
pelo menos.

De que vos falarei,
com palavras póstumas
onde o rancor se apaga?
Era uma vez

aquele jogo triste que não sei jogar.

(Manuel de Freitas)

INVOCAÇÃO

Em Braga pedi que me beijasse como se fosse
pela primeira vez
e me beijaste como se um beijo ainda fosse

Uma promessa do divino
pairando sobre as nossas
promessas que a nós mesmas tecemos.
Peregrinamos, comemos
e amamos segundo o bater dos sinos.

Não há nada mais santo
portanto
que os beijos que portamos
pelos corredores das naus
como se nunca houvera
a última vez.

(Eu)

30.6.13

tentando, no espaço de dois dias, reembarcar pro rio, depois de, na porta do portão de embarque, resolver voltar e rever o porto, gaia, (são) pedro, tudo.

já ouvi mais ou menos 3 discos, arrumei o álbum do facebook do porto em ordem cronológica, e até agora não chorei nem senti febre. parece que hoje vai ser menos dramático chegar ao rio. não sei. não há como prever. mas sei que fiquei calejada em: emagrecer minha mala (elas ficaram com 3 quilos a menos! sem eu ter jogado nada fora!); pular a fila do check-in já que tinham-no feito pra mim quando eu cheguei pra moça sobrecarregada no balcão do portão e embarque e falei:

- olha, desculpe, veja só: há a possibilidade de eu desistir desse voo pro rio de janeiro hoje e embarcar na segunda-feira? eu estou doente e sem dormir, vou chegar ao rio de madrugada... 

mal sabia ela que o que eu queria era responder ao vivo uma mensagem de texto que recebi e desencadeou um choro que acompanhou a redação do post anterior. não respondi nada verbalmente, ao reencontrá-lo, mas com a minha presença física: sou alguém de quem não se sente saudades. forjo a minha onipresença onde estiver. refaço todos os caminhos se for preciso.

a moça disse que só havia voo no domingo, eu achei que tudo bem, contanto que fosse direto pro rio. na madrugada de sábado de são pedro d'afurada para domingo, dormi no sofá vendo um filme francês de comédia quase mudo. sonhei com o avião fazendo um pouso forçado e eu ficando puta porque tinha pagado caro e não ia direto pro rio. mas todos sobrevivíamos. 

vim conversando com ele, no caminho pro aeroporto, sobre sonhos macabros que tinha durante minha depressão. ele insiste que nunca faria psicoterapia, a não ser que pudesse controlar e analisar exatamente o que o médico estava fazendo com ele. essa gente é completamente louca.

mas o meu sonho recorrente dos dentes caindo teve uma explicação que eu achei muito coerente: a gente só sente falta de uma coisa que já perdeu. nunca podemos sonhar com um membro mutilado, porque nunca ficamos sem um braço. mas como já estivemos banguelas, podemos abrir um precedente pra sonhar com a falta do dente. sabemos como é isso. aí o inconsciente nos faz desdentados e sangrando, representativo de algo que nos falta e sabemos como é.

me lembra trechos do eros, the bittersweet, agora que penso nisso: aquelas assertivas sobre o amor ser aquilo que nos falta, o desejo de preencher o espaço entre dois corpos. mas esse espaço lacunar existirá sempre. quando a anne analisa aquele poema da safo, o fragmento 31. então talvez sentirei a falta dele como se ele tivesse sido um dente meu. vai sangrar, que nem nos meus sonhos. mas depois de se desprender da gengiva, restará o dente inútil, sem função e não-amadurecido. posso fazer um colar com todos os dentes-amantes que sofri. e posso abrir espaço para que nasçam uns pela raiz. e que durarão até a velhice.

outra coisa que me inquietou enquanto tava na casa dele, e ele passava a tarde inteira de cueca na minha frente: acordei enquanto sonhava com umas frases assim, que não pude capturar como era no sonho, mas o sentido está aí:


você não acha que há de haver sempre uma pessoa feita para a outra, que as duas se dão muito bem, e que se deixassem de palhaçada iam ser muito felizes?

achar eu acho, se a natureza os fez assim é que é outro problema.

mas reconditamente eu acho. senão não tinha esperanças.

então é vergonha de admitir o que se acha? pros outros?

vergonha de admitir pra natureza. o que ela faz é sempre tão maior que as nossas escolhas, como: ficar de palhaçada. ficar de palhaçada é uma escolha.

28.6.13

as coisas passando, eu quero é passar com elas

todo movimento tem à partida a imobilidade de uma pedra. cada pedra tem em si o voo imóvel. ou voo ou senão... um estar de rastos. ou então: o desintegrar-se em pedras mais pequenas, areia funda. ou ainda: a água que lentamente compõe tudo o mais. em pedra dura, é a sede que a pedra consome.

ficou para trás um país mormente feito de pedra. pedra no mar, nos corações, nos matagais.

pedra em miragaia, pedra em miramar, pedra em tua nudez.

pedra em tudo.

pedra que pede: não pares de pensar em mim, não pares nunca, não se vás, não fiques, esteja, esteja, seja, seja, pedra, pois, pomo, mar, pomar.

pedra álgida na lágrima que se equilibra em sílaba que não sai, não sai, porque não vens comigo, não vens e a saudade me rouba todos os cais petrificados dessa terra de porto e calor.

15.3.13












a graduação me proporcionou umas coisas bacanas: primeira vez que eu vi a luiza não foi de ver nem de ler, na verdade. ela me entrou pelo ouvido. fui assistir a um colóquio sobre ela na faculdade. sem saber nada da obra mesmo. por isso que digo que faculdade nos traz coisas legais, estando a gente despido do preconceito.






a conferência não tinha começado, o "senhor professor doutor" entrou e foi testar se o disco funcionava. era algum crítico famoso dizendo os poemas dela num cd. era este poema:





Esclarecendo que o poema 
é um duelo agudíssimo 
quero eu dizer um dedo 
agudíssimo claro 
apontado ao coração do homem 

falo 
com uma agulha de sangue 
a coser-me todo o corpo 
à garganta 

e a esta terra imóvel 
onde já a minha sombra 
é um traço de alarme 

sem querer fazer um paralelo de propósito com o que diz o poema, senti minha garganta gelar, as cordas vocais se separarem em vontade de choro, sem sequer saber direito o que aquilo que tinha me entrado pelo ouvido (e por outras partes, apontado) significava no plano semântico, sei que senti que ia me apaixonar, e isso não ia ter a ver com intelecto. queria ter comigo o texto que escrevi naqueles dias de colóquio, era uma coisa que até pensava em virar texto de blog, mas acabou virando qualquer coisa entre a besteira de internet e um artigo acadêmico, e o uso ficou nada disso: é papel na minha pasta de anotações.

no brasil. e eu aqui, por acaso.

absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.



começo a não acreditar em acaso. lemos aquilo que precisamos ouvir em determinado momento. ou deixamos de ler porque não há mais o que nos tocar. o que me incomodava nesse grupo de poetas portugueses em que a luiza se insere era que eles eram apegados demais à tradição literária. sempre achei isso uma reflexão de segunda ordem, um lirismo de dicionário (aquele que para para averiguar o cunho vernáculo de um vocábulo). mas nos fins das obras, nenhum dos poetas fica assim. e esse negócio de dialogar com a cultura não é tão ruim, se for de vez em quando.



enfim, não sei se me estão aguentando.


11.3.13

meu maior triunfo como leitora de poesia foi outro dia estar na casa de um amigo português e dizer aquele poema do poeta sórdido. depois de proferir o primeiro verso -

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

- ele disse: ahn... e como é a teoria?

posso considerar um ganho de todas as horas ouvindo bethânia dizer poemas e de algumas treinando eu mesma a dizê-los, com o outro joão.

há um livro do gastão que subverte a nossa imagem poética das aves. outro dia o mesmo amigo português leu-me o tarot, e saiu essa carta, de aves, significando liberdade e tal. fui ler o que o gastão dizia sobre elas, e são todas imagens decadentes, de ocaso, outono e outras palavras começadas com o.

Outono do amor que folhas moves 
na direcção dos corpos separados 
e molhas desses prantos ignorados 

de quem da primavera conheceu o 

movimento das aves 
e desse movimento estas esperas 
agora só conhece já e ouve 
a própria descida com as folhas 

a voz própria cansada 
quando a vida 
e a voz lhas está a dor tirando 


e não posso nem pensar em esquecer o verso camoniano que é usado como epígrafe, coisa que geralmente a internet esquece:

"a voz e a vida a dor me está tirando".

coisas de 1972. ou 1572. não se sabe.

2.12.12

i blew it all through the air

escrevi um texto sobre o pedro. no meio do texto tive uma ideia de presente pra dar pra ele, e achei que uma parte do texto podia servir de dedicatória. já que minhas chances, pelo menos por enquanto, se esgotaram, achei por bem postar aqui. porque eu tolhi a parte em que era extremamente clara sobre minhas más intenções para com ele. e agora é hora de ir a lume. lá está-

Minha paixão pelo Pedro já virou uma paixão por oposição, se intensifica por causa dessa oposição, e me movimenta, me irrita, me tira da inércia, ou, como dizem, me ofende, me fere, me demove, comove, compõe e decompõe, me morre, me erra, me faz ser a pessoa mais ignorante do mundo - e talvez a mais sábia por reconhecê-lo, é uma paixão Lóri/Ulisses. Talvez deva ser esse o livro para eu dar a ele, essa a aprendizagem que eu tenha a oferecer-lhe, é um livro de amor, de lógos, de desorientação, deslocamento, persona, lágrimas, táxis, rio.
esse Rio que é mais mar que o mar
Um Douro muito controverso, sem cantadores, que (en)torno em: eu.
Não é assim que começa, nem bem assim que termina,
é vasto, vai durar

7.11.12

tudo métrica e rima e nunca dor

meu melhor amigo mudou de blog (não sei se pode divulgar ainda) e eu não sei por que diabo insisto (nessa profissão) em ter esse desde 2005 (quando comecei a ser lésbica).

[cito isto: [ou "cisto"] BUARQUE, Chico]

mas então vim no ônibus depois da yoga (quando vem mais daqueles pensamentos mais crus, puríssimos, ingênuos e sem filtro) pensando que eu devia mesmo postar mais, como se a crítica viesse me cobrar: fernanda não escreve mais, deve estar muito ocupada vivendo. (tinha guardado um post-velório aqui, missa de primeiro ano de morte, mas ainda bem que o dia passou e eu não posso render homenagem a uma coisa dessa)

então não ia ser sobre isso o post (li esses dias que falar de amor está fora de moda, o que pega bem é ser metalinguístico), mas se eu pudesse eu continuava o mesmo blog desde 2001. era nanda_b2.blogspot.com, salvo engano, até o dia em que sem querer, sem saber o que estava fazendo, apaguei os primeiríssimos posts, que dava tudo pra reler, até minha coleção de discos do roberto.

vamos a sobre o que era o post, esperando o ônibus por eternos 6 ou 8 minutos na maior friaca molhada, fiquei que nem uma doida cantando notas graves - começou com o mantra final da sessão, virou "black is the color of my true love's hair", e, como meu true love desse último mês tem cabelo preto e olhos verdes, aquilo logo virou "morena dos olhos d'água", e é um abuso eu aqui nesse frio e nesse exílio evocar chico buarque, a uma hora dessas, entende? (da onda chico verde)

sempre que eu fico que nem uma doida testando os meus graves, que eu sempre acho muito mais bonitos (além de serem discretos) que os agudos, penso num vídeo (que não consigo achar) em que a gal conta que, em criança, pegava uma panela, ia pro banheiro, botava aquilo na cara e ficava testando a acústica e os sons que a boca dela emitia. é assim, sabe? artista é isso. ponto.

encerrarei com um poema do manuel antónio pina, poeta português falecido há umas semanas. não conhecia nadica dele até ir a uma leitura em sua homenagem, hoje à tarde, e achei esse fato um absurdo:

 A poesia vai acabar,
 os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis.
 Por exemplo, observadores de pássaros
 (enquanto os pássaros não
 acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
 entrar numa repartição pública.
 Um senhor míope atendia devagar
 ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
 poeta por este senhor?» E a pergunta
 afligiu-me tanto por dentro e por fora
 da cabeça que tive que voltar a ler
 toda a poesia desde o princípio do mundo.
 Uma pergunta numa cabeça.
 — Como uma coroa de espinhos:

 estão todos a ver onde o autor quer chegar? 

7.10.12

estava com saudades de viajar sozinha, ficar sozinha com os meus pensamentos, me alegrar ao ver uma coisa e poder lá ir, sem ser escrava do tempo.

o problema é que às vezes eu só consigo re-pensar no que eu já tinha pensado: como eu gosto de viajar de costas no comboio à hora de partir; parece que olhando para onde você veio, você não perde a experiência, faz aquilo durar um pouco mais. mas antes eu me sentava de costas e continuava a ver lisboa, até que não sei como, não sei por quê, chegava a cascais de costas.


Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar.
[eugénio de andrade]

hoje eu vi o mesmo, mas por outra perspectiva, ou seja: vim de frente pra cascais, de costas para a lisboa dos meus sonhos. foi muito diferente, já que em vez "da cidade a que chego se abrir como se do seu nome nascesse", o que ficava quase estático, mas com um movimento parecido com o dos discos voadores, que ora piscam num lugar ora noutro, era o farol do meio do tejo. aí me veio daquelas sensações: ("o que vejo a cada momento é aquilo que eu nunca antes tinha visto"): passei tanto tempo ignorando essa perspectiva... e agora me parece tão especial... (não sei, algo assim)

a gente precisa passar por essas situações: "o quarto mais barato que tivessem". arranjei um hostel de 12 euros num lugar um pouco sinistro de lisboa. mas na boa: a equipa, composta inteiramente de homens, está me bajulando que só, entre uns brasileiros e outros xarás, eu faço assim: conto com a sorte de terem me dado um quarto em que não tinha mais ninguém, e que seria exclusivamente de mulheres (mal sabem eles...). mas é só ladeira e aqueles pedregulhos que nego chama de calçada portuguesa (e essa civilização que aqui não chega?). 

estou descansada. vou.

3.10.12

enquanto houver marinheiros

sabe quando você ganha um livro mas fica muito apaixonada pela dedicatória, então nem lê mais nada?

meu amigo tuga, tudo, me deu um volume do alexandre o'neil. eu sempre tinha achado o nome dele estranho. porque que tipo de nome era alexandre o'neil se a pessoa não é britânica (escocesa/irlandesa/galesa), ou, sei lá, um marinheiro?

Dragado de conversas, Tejo, darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton,aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar,tão sobranceiro!
[...]

Ó Tejo nunca inaugurado,nesta praça
devia haver comércio,esplanadas,mesas
onde eu assentaria o cotovelo e,a cafés,
diria,versejando,quem não és.

[...]

ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste,tu não te aguentaste!
Mas eu,Tejo continuado,nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim,meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido,com esta minha vida,

"três carneiros do tejo"

outro dia li, numa livraria, num livro de dois volumes e 10 euros, que o crítico eduardo lourenço [do prado coelho. é a 3a vez que venho trocar o nome do eduardo] recebeu uma dedicatória assim: para o eduardo ler, enquanto houver marinheiros. de modo que eu achei muito mimoso e - atenção, viu, gente?, eu vou em breve entregar a alguém um livro da sophia e pôr essa dedicatória.

estou muito transbordante de amor, e com um pouco de impaciência: e ao mesmo tempo: tenho saudades de tudo. não exatamente da "pátria minha", mas talvez "da vida e das mulheres que amei". fico até com pena de não conseguir postar muito aqui, porque sei que daqui a uns anos vou procurar pelas minhas impressões da europa e só vão ter uns três posts de blog. é uma mídia morta, mesmo, mas do mesmo modo tem gente que gosta de vitrola...

19.6.12

não existe amor em portugal


DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
  - 310.

4.2.12

no verão é terrível o meu riso,
quando o lugar da flor e o lugar
do fruto coincidem, isto é, possibil
idade de árvore. repara.

[joão miguel fernandes jorge]

7.5.11

no coração um berreiro

voltar para o rio é das coisas mais perrenguentas e, ao mesmo tempo, aliviantes que há.

adianto que voltar nas condições de um outono chuvoso - quase tão chuvoso quanto abril de 2010 com a queda de uma favela inteira do alto do morro para a lama do chão -, correndo risco desse atlântico transbordar (como se não bastassem as saudades), é muito melhor que o choque térmico de fevereiro
(-40 oC para +40 oC).

a primavera é aquela estação fecunda da qual falei pra vocês no post passado, em que os frutos desvelam sua potência pregnante (aprendi essa palavra numa tese sobre a sophia e tenho me divertido muito com ela).

mas pronto, depois de umas injeções aqui e ali dum vocabulário luso-estrangeiro que não quer me largar (e eu não quero que me largue), voltei ao brasil naquela expectativa de estar calor, eu poder encontrar os amigos para muitas cervejas e exibição de slides, ir à praia, coisas cariocas.

só que cheguei no meio da vida das pessoas - como se alguma vez não fosse assim, sou sempre aquela que interrompe tudo a meio -, era época de trabalho, pras gentes que trabalham, pras gentes que estudam; e eu, nesse limbo, tendo que fazer os dois, mas com excelentes tempos livres de fazê-lo quando me apetecer.

cheguei meio sem compromisso de nada, afora as questões de saúde, sem ter hora pra muita coisa - o que me possibilitou gastar uma média de uma hora e meia em cada viagem em ônibus que cruzam somente a zona sul do rio. isso me irrita, como me irritam muitos procedimentos que considero ser a continuação das burrices lusitanas que vivi por três meses.

me dizem que eu não devo me chatear quando vejo no comboio, sulcado nas tintas da janela azul, "as brasileiras são todas umas putas". devemos só estar lá, sabendo que não somos dessa densidade demográfica, e fazer o melhor do nosso trabalho (pra provar a eles que estão errados). mas quem está interessado em ver que esta não é a verdade? adianta eu desviar minha atenção e pensar "não é comigo..."? adianta não me afetar como povo?

e eu falando sobre tuguices, certamente atinjo alguns de meus amigos patrícios. quem está sendo ilógico agora?

devo dizer, por último, que não me senti nada exilada, em nenhum momento, porque o brasil sempre esteve dentro da minha casa e dentro do meu telemóvel. sempre houve farinha de mandioca, guaraná. de resto portugal é sempre igualzinho ao brasil, em tudo o que presta e em tudo o que não presta.


E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
(sophia de mello breyner andresen, "há cidades acesas" in: poesia)

21.4.11

tudo ou sobrou ou foi pouco (não sei qual) e eu sofri

pessoa tem muitos outros textos de questionamento, invocação e exorcismo de deus, mas achei (inclusive sonoramente) este o MELHOR encadeamento de texto e música da história da maria bethânia.

(o mundo precisa de poesia)


este, em lisboa (onde mais?), 8 anos depois da revolução dos cravos também é campeão de audiência:

25.3.11

vida seca.

ontem perdi um euro tentando comprar água (só tinha comprado chocolate até então) naquelas máquinas que ficam na rua, e você põe o dinheiro, aperta o botão e o negócio cai (tem mais em estações de trem/metrô). tinha pensado em comprar a água que correspondia ao número 44, mas achei o rótulo da 47 mais bonito e agora os deuses da numerologia brigaram comigo. tenho certeza que isso já aconteceu a toda a gente. mas como eu sou phyna e não faço escândalo por um euro (2,34 reais), não sacodi a máquina pra que a garrafa caísse. (fiquei com sede)

17.2.11

olhos de gaysha

eu vou fazer
um post como os dele
um post bem singelo, português.

se esses posts são adolescentes, me manda um scrap e chama de thalita rebouças!


para lançar depois do carnaval. no carnaval ela vem e será festa da carne (vou até comer bacalhau - que outra graça tem, estar em portugal? R: bairro da graça, travessa das mónicas).

lembra quando a gente escrevia as perguntas que a tia ditava, depois pulava duas linhas, escrevia as próximas, e depois pra responder começava (com lápis ou caneta de cor diferente) com R: ?

esta estátua é walking-distance da minha casa e nemvi. vergonha forever. até meu fotolog já sabia dela...

15.2.11


preciso de um novo objetivo - que não seja terminar, pela segunda vez, uma revisão de um livro sobre o john lennon -, porque senão nunca vou viver de manhã em portugal. despertadores não adiantam, eu só levanto à uma!


enquanto digito, só penso numa coisa: que eu seja uma pianista e os acentos sejam os acidentes das escalas...

um livro que não dá pra parar de ler: bolor, do genial-overrated augusto abelaira. tem cada passagem bonita com aquele ar contemporâneo de insatisfação burguesa... no brasil estamos atrasados! e conhecendo os lugares pelos quais os personagens passam... vêm jantar, romanticamente, aqui na praia de carcavelos, que é um areal que não tem mais fim.


E os mirantes do bairro alto, as vistas presse rio que não é rio -imagens.

mesmo quando tou em casa, portugal continua a ser giro.

10.2.11

essas mulheres...

penso em quantas poetisas portugal teve, pelo menos no século XX (florbela, sophia, fiama, luiza), e me espanto de não conseguir lembrar de uma brasileira pós-cecília meireles. tudo bem que não me esforcei pra pensar numa claudia roquette-pinto que não conheço, de todo, nem estou perto de enunciar fernanda young - que fez um livro rosinha que fora a capa não desperta nenhuma curiosidade.

aqui até mulher-de-escritor se engaja com a cidade, o que denuncia que portugal é país para mulheres fortes. diz pilar del rio: "Não tive dúvida nenhuma em vir viver para Lisboa. Não tive nenhum problema de adaptação, quando vim para cá, vim para minha casa."

com isso também começo um manifesto que sempre me prometi fazer em favor do vocábulo poetisa, entendendo que não dizer "poeta" não é nenhum demérito pra mulher que escreve versos. sophia não gostava, o que vai um pouco na linha do poeta sem biografia ou gênero. mas acho que, assim como pilar defendia o uso de "presidenta"(é um mau exemplo, pois presidenta não existe oficialmente), devemos usar "poetisa", sem maiores problemas, simplesmente porque há esse nome específico para a mulher que tem essa profissão. pronto. tô com dona cléo e não abro!


29.1.11

vegetariana x vegan

no primeiro dia de congresso, o helder macedo não ia almoçar e eu ganhei a pulseirinha dele pra filar o rango do refeitório da fundação calouste gulbenkian.

mas no segundo, não quis dar uma de abusada (apesar de tudo ser permitido perguntar, porque o lema do viajante é: "o 'não' está garantido"). como a última mesa estava chata, saí um bocadinho cedo e corri ao outro lado da rua para almoçar. e vocês sabem como vegetariano sofre, não é?

pois.

- moça, me diga: há alguma coisa vegetariana, sem carne, para almoçar?
- não - a merendeira pausa. - se bem que tem aqui um quiche, pode ser?
- maravilha, pode sim.

e me entrega um quiche - já tinha jogado para o alto essa história de não comer ovo, frente a uma possibilidade tão fácil de almoçar - com salada, vagabunda.

ao me sentar na mesa, vejo uns pedaços marrons de carne encrustrados à massa. levantei:

- olha, a quiche que a senhora me deu tem uma carne aqui. tem algum sem carne nenhuma, só com queijo... ou qualquer outra coisa?
- mas isto não é carne!
- ai não, o que é?
- é atum!


- pois já não como nem peixe! tem outro?
- ah, então não é vegetariana, é vegan!

quis morrer de rir.

- é, eu queria um sem carne nenhuma... tem?
- não... o que eu posso fazer é devolver este e por um bocadinho d'arroz pra comeres junto da salada.
- pode ser! perfeito...

e foi a primeira vez que eu vi alguém que sabia o que era vegan, mas não sabia o que era vegetariano.