explicou ao crisóstomo que a um dado momento era preciso amar sem olhar a quem. quando se espera uma vida inteira, perdem-se as exigências e tudo se torna muito geral. (...)
quero a mulher que fala sozinha com a areia e o mar, a que veio ao meu encontro exato. a isaura sentiu que estava triste e feliz ao mesmo tempo.
ela perguntou: podes repetir.
ele disse: amo-te, isaura.
subitamente, metade das coisas pareciam compostas.
(valter hugo mãe, o filho de mil homens)
de sofrer e amar, a gente não se desfaz.
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4.11.14
6.3.14
você sempre volta com as mesmas notícias
não tenho as mesmas notícias de sempre, mas hoje acordei numa manhã que sabe a ontem. gosto desse dizer português: "saber a", querendo dizer "com gosto de". reaproxima o conhecimento das papilas gustativas, dos cinco sentidos, de um empirismo que não se esgotou com o racional. junta o saber e o sabor, e o sabor tem gosto de lembrança.
pois essa manhã de hoje me deixou em casa, uma nova casa, de novo - nunca vi a pessoa se mudar tanto, e ainda continuar com tanto cacareco, acho que se eu fosse contar eu estaria na 6a mudança desde que comecei esse blog nesse endereço.
a manhã de hoje tá um pouco chuvosa/nublada, fico na internet procrastinando bastante, acho que tenho medo de fazer a coisa que preciso e descobrir que não posso mais me doutorar em portugal (mas é besteira, é um pouco como aquele verso "cê sai de perto, eu penso em suicídio (mas no fundo eu nem ligo)").
li um pouco de proust, estou tentando voltar com aquele plano carsônico de ler "for about half an hour" everyday after breakfast. não entendi nada, fiquei patinando nas mesmas 3 páginas, acho que é por isso que ninguém tem saco de ler proust. mas achei uns sintagmas magníficos na tradução do pedro tamen: "legrandin tinha o verbo infinitamente mais pronto"; "mas essa é uma reputação que não me assusta, de tão verdadeira que é!; "como o ramo de flores que um viajante nos envia de um país aonde não voltaremos, faça-me respirar da distância da sua adolescência essas flores das estações primaveris"; "as ancas de legrandin, que eu não supunha tão carnudas; e, não sei por que, aquela ondulação de pura matéria, aquela vaga inteiramente carnal, sem expressão de espiritualidade e chicoteada em tempestade".
queria ter uma bomba.
30.7.13
da póiesis enquanto práxis da pólis
lendo o livro do henrique (e da érica) - que é ebook, e é online, e é de graça - tive uma iluminação: que bom trazer a ética e política pra estética (a baixa estética, a baixa cultura/costura, a pluralidade de vozes). botar, antropofagicamente, a voz de luane dias e a de inês brasil, num manifesto-poemático. tudo isso não para de ser atual, e avant garde, nem nem precisar pretender sê-lo. isso tudo faz sentido dentro da literatura contemporânea.
fico muito feliz que seja tempo de compartilhar, e de colar, e de copiar, e dane-se o copyright.
e é bom que sirva pra dizer: "a gente não tem um hospital maneiro/ (...) tá ridículo, tão querendo passar uma imagem pra gringo que não é". nessa voz. que é extremamente necessária de ser ouvida.
e pensei mais uma pá de coisas que até dar login no blog eu já tinha esquecido. mas elas valeram ser pensadas.
1.7.11
15.2.11
preciso de um novo objetivo - que não seja terminar, pela segunda vez, uma revisão de um livro sobre o john lennon -, porque senão nunca vou viver de manhã em portugal. despertadores não adiantam, eu só levanto à uma!
enquanto digito, só penso numa coisa: que eu seja uma pianista e os acentos sejam os acidentes das escalas...
um livro que não dá pra parar de ler: bolor, do genial-overrated augusto abelaira. tem cada passagem bonita com aquele ar contemporâneo de insatisfação burguesa... no brasil estamos atrasados! e conhecendo os lugares pelos quais os personagens passam... vêm jantar, romanticamente, aqui na praia de carcavelos, que é um areal que não tem mais fim.
E os mirantes do bairro alto, as vistas presse rio que não é rio -imagens.
mesmo quando tou em casa, portugal continua a ser giro.
9.2.11
destrua sua tv, vá ler um livro.
e falando nisso, fiz uns planos pra até 2018. tão prontos? ler, começando a cada maio, um volume de em busca do tempo perdido. não é nem tão ambicioso assim, né? sete anos pra ler umas milhares de páginas tá bom.
hoje ia ficar em casa pra trabalhar. o primeiro passo tá feito: acordei 1:30 da tarde...
20.10.10
: (ou - "o que é seguir"?)
ou: será que é uma culminância, se continuo?
hoje foi minha prova de aula, falei de clarice. fiz muita coisa com um cuidado muito maior que tinha outrora, pareceu até que eu era uma pessoa organizada, com planos de aula, idas ao quadro, handouts, celular avisando de 5 em 5 minutos pra eu não me perder no tempo. não foi dito tudo. tudo muito bem, porque "todas as coisas do mundo não cabem numa idéia. Mas tudo cabe numa palavra, nesta palavra tudo".
reconsidero algumas coisas: meu voto, que talvez fosse nulo e agora vai pra dilma; meu ex-voto de "nunca vou dar aula, não nasci pra isso". é tudo uma aprendizagem mesmo, só para quando a gente morre. de modo que essa coisa cresceu na minha concepção, a coisa do magistério, e também cresceu, com muito trabalho e auto-disciplina (ainda minada e sabotada, mas tô melhorando), minha auto-confiança pra dar aula. só de ver os sorrisos daquelas pessoas... parecia, por um momento, que todos nós tínhamos mesmo que estar ali: que desfrutávamos. e é isso que tinha falado no último post - se até ali não tinha me apropriado do magistério, me vendo naquela profissão, hoje, em fulgurações epifânicas, tive momentos felizes. seria feliz fazendo isso, gosto mesmo e é bom fazer o que se gosta, pronto. saber que os outros gostam do resultado daquilo que você faz e gosta também é bom.
pra não sucumbir ao pânico nervosismo, antes, fiz tudo devagar e organizei o quarto, e respirei, e saí, vi as coisas, as pessoas, vivi no presente (como não vivo agora); pensei que não queria ficar elocubrando e sim prestar atenção às coisas que aconteciam ao redor. foi muito presentificante.
no depois da aula, ainda no mesmo processo voltei pra casa, aí vi: "os fios do urucúia". acho que se não tivesse presente o dia inteiro, nunca teria prestado atenção àquela exposição que estava no meio do caminho. como ela deve ter estado há vários dias no meio do caminho e só hoje vi. conhecendo a palavra por causa dos sertões roseanos, senti uma palpitação: que lindo, o sertão veio pra beira do mar! se a montanha não vai ao sertão, o sertão vai à montanha! e veio. é claro que eu ia encontrar uma citação de rosa: encontrei. "o sertão é dentro da gente". e hoje ia sair com a camisa com outra citação: "pão ou pães é questão de opiniães". mas sujei de feijão, no almoço. feijão ou feijães, deixei em casa, troquei, mas rosa me encontrou depois!
15.10.10
tanta coisa... tudo!
eu não tenho muita certeza se sou/serei professora ou não, o meu compromisso é, efetivamente, com o âmago. seja pela música, teatro ou literatura.
mas... transmitir essa paixão, re-estabelecer alianças com o real, efetivar um compromisso com o seu próximo tendo como ponto de partida a arte...! é isso, sabe? parabéns pra nós todos. ninguém sabe mais que ninguém. o mestre - quando é mestre - aprende, ouve, cala.
“Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...”.
14.8.10
sophia, a europeia que gostava de banho
evidente: é tudo isso uma piada, mas o movimento exato, a coluna ereta e a voz firme de sophia não:
(gosto quando ela fala de coisas eternas junto à movimentação da casa, tudo uma bagunça - a vida à beira: "ó, francisco, mas o que é isto?")
olhem, quando eu comecei a pesquisar a sophia, no início de 2008, tinha bem pouca coisa dela no youtube, pela internet - mesmo as obras: eram poucos poemas, o google apontava pra sites com wallpapers de praias e fundos musicais em midi.
de modo que quando vejo tanta coisa assim sendo apresentada, publicada, resgatada - entrevistas, espólios, encantos de leitores com a sophia aqui e ali - fico muito feliz. acredito que sophia também ficava, porque faz precisamente poesia que vive, que se atualiza.
às vezes sinto essa heleno-lusitana-nórdica como se ela fosse uma grande amiga. no entanto só recentemente a vi em movimento, só recentemente ouvi sua voz... e vezes há, suponho, "seres um milagre criado só para mim".
12.8.10
a noite estava fria lá fora e dentro dele o nome boiando. sussurou-o baixinho para a noite.
- paula.
era preciso dizer para que sentisse, para ficar livre a passagem por onde o amor se intrometeria. arrependia-se de ter dito o nome, preferia guardá-lo esquecido. não era tão puro o som como imaginava. precisava barrar o caudal de lembranças que viria. antes que fosse tarde, antes que o remorso se lhe apoderasse da consciência, procurou afastar de si o nome de tantas lembranças tristes, porque o amor era um prolongamento de sua tristeza. de novo o nome caía de seus lábios: ácido roendo o peito, unha arranhando a carne.
- paula... paula... de mansinho, como quem dorme.
[autran dourado.tempo de amar]
já vi tudo, vou acabar escrevendo sobre esse, e não barca dos homens...
5.8.10
cês sabem o que é quando vocês querem "uma canção de amor que fale da minha situação?"
tô procurando forever isso, não sei onde achar.
while you try to findthe lines to speak your mind
cadê? parece um desespero. se eu fosse talentosa, escrevia.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
31.7.10
'com esse vídeo eu fiquei pensando: se perdesse todos os meus livros, se me livrasse deles, tivesse que construir tudo de novo, eu ainda seria capaz de escrever, rememorando, todos os ensaios, poemas, resenhas, críticas, teses, antíteses, romances que eles me davam como possibilidade. mas só por causa do acaso que me fez perdê-los. é uma espécie de despojamento.
como diz camus, "i realized then that a man who'd only lived for a day could easily live for a hundred years in a prison. he'd have enough memories not to get bored. in a way, that was a good thing".
falando em memória, depois descobri que esse programa é originário da tv tupi, e já em 73 chico buarque ameaçava roubar os violões da produção.
de 25 anos depois, o ensaio da adriana é como se fosse um ensaio - para além do treino de sons, afinações e repertórios -, um ensaio da arte poética, o mapa da mina da cantora sulista/solista. comam calcanhotto inteira!
25.7.10
o homem que diz "dou" não dá.
acho que sei por que não tô sintonizando muito com esse ensaio que tô fazendo. acho que até agora só fiz trabalho sobre "belos sentimentos". agora que eu peguei um livro - meio expressionista, diga-se, pela manifestação de elementos angustiosos - de indiferença, medo, escolhas existenciais, assassinato, prisão e exclusão sinto essa impossibilidade de escrever. é impossível escrever, porque "nem só de belos sentimentos é feita a literatura", como diria gide.
isso já me aconteceu antes: quando tinha de escrever sobre ensaio sobre a cegueira, anos antes, não fiz o trabalho - parcialmente porque estava num momento depressivo em que não conseguia concretizar nada, só ficar boiando no não-feito e na "vida que poderia ter sido e que não foi". a cegueira é um livro sobre essa imobilidade, sobre a incapacidade de reter as coisas a partir do real do mesmo jeito a que somos acostumados. a criatividade deve, então, se abrir - eu devia arranjar um outro jeito de me aproximar daquele texto que era tão isomórfico com a minha situação real. li o camus, e sou tão meursault que eu não me importo realmente com as questões que são abordadas racionalisticamente - como num romance de tese - em o estrangeiro. como transpor isto?
o que é a indiferença? o que é ser moral? o que é a relação com o outro? meu gosto para a literatura é uma coisa, admito, muito umbiguista (é confissão entre um eu e um logos).
sabia que o rafa já tinha escrito um texto sobre o camus e fui lá procurar. era sobre a peste, mas tem tudo a ver com a minha procura fundamental por coisas unidas - e não partidas, como o sofrimento - na arte:
"chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura”.
a questão é que não quero fazer da arte, e dos meus ensaios inspirados por ela, um escape, uma concepção exclusivista da beleza e da unidade, mas uma solução para encontrar essa metade de mim que fica perdida por aí.
6.7.10
o mau gosto dos portugueses
José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.
A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.
enterram o cara em frente à fundação que o homenageia - tipo stálin no krêmilin -, inda põem banquinho pra galera ler ao pé do morto, e - como se não bastasse a portuguesice - transplantam uma oliveira centenária da sua terra original, embora saramago não parasse de reclamar do extermínio das oliveiras.
chega, portugal, chega!
ps: queria saber botar meus marcadores ali do ladinho da página. sabem como fas?
30.6.10
27.6.10
de modo que para ser ensaísta e filósofo precisa ser poeta.
todos os homens, sem exceção, entreviram por um instante a experiência da separação e da reunião. no dia em que verdadeiramente estivemos enamorados e soubemos que esse instante era para sempre; quando caímos no sem-fim de nós mesmos e o tempo abriu suas entranhas e nos contemplamos como um rosto que se desvanece e uma palavra que se anula; na tarde em que vimos aquela árvore em meio do campo e adivinhamos, embora já não o recordemos mais, o que diziam as folhas, a vibração do céu, a reverberação do muro branco golpeado pela última luz; numa manhã, estendidos na relva, ouvindo a vida secreta das plantas; ou de noite, diante das águas entre os altos rochedos. sós ou acompanhados vimos o Ser e o Ser nos viu.
[octavio paz, "signos em rotação"]
15.6.10
estou pensando se agora devo escrever notícias quentes sobre as maravilhas do casamento. "would she go out at 2 am to buy groceries?"/ "and everytime i buy a diamond ring i hope you wear it - well, can you wear it?".
ah, who am i kidding, né? é o mesmo de sempre:
ah, who am i kidding, né? é o mesmo de sempre:
como é estranho o coração humano, ele comporta mais de um amor! dois amores diferentes, simultaneamente vivos, quero dizer. o meu amor desesperado por ismael, que parece não querer acabar nunca e o amor tranquilo por tote, persistente.
[autran dourado.ópera dos fantoches]
1.6.10
o ventilador era a coisa que roda.
hoje terminei de ler um livro - que enrolava há um tempão - e, de quebra, li libertinagem, de um dos nossos amados manuéis. estou feliz: sentimento de dever cumprido.
25.5.10
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