fodeu, com esse título vai vir um monte de naturalista aí ver esse blog.
mas olha, eu acho que uma fruta nunca é con-sumida ao máximo do seu potencial de delícia enquanto não a comemos de modos exóticos, metendo a cara nela e mordendo/chupando, o que vocês preferirem, até que sobre só a casca, quando houver.
por exemplo, banana só tem aquela realeza de felicidade porque metemos lá, diretamente, a boca e comemos toda aquela massa amarelada, até que se desprenda totalmente, livre, a casca que a natureza soube produzir, num show de design. a casca da banana é das coisas mais fáceis de abrir do mundo, é higiênica, não disperdiça a fruta, não precisa de faca, e você não se lambuza com a água que a fruta contém. de quebra, você consegue até quebrar a perna de um larápio que passa pela rua sem prestar atenção.
por outro lado, nunca soube muito bem descascar uma laranja com grande organização - quando a casca não se solta facilmente com a mão e sobram aquelas fibras brancas um pouco amargas -, então, no meu período no hemisfério norte, resisti a comprar a fruta que é gêmea dessa. ninguém sabe traduzir o nome direito, nos programas de língua inglesa: é a toranja.
a toranja - grapefruit, de que todos que estão em dieta falam mal - é uma versão hemorrágica da laranja, parece que os vasos de uma laranja estouraram todos. e achei uma delícia. ainda mais quando comecei a comê-la daquele modo exótico.
(agora vem toda espécie de pervertido sexual)
e hoje eu comi o melhor kiwi da minha vida, experiência para a qual eu precisei deixar madurar o kiwi duas semanas na geladeira. tentando descascá-lo civilizadamente, e comê-lo em rodelas, o lindíssimo fruto australiano se desmanchou todinho (tipo um urso, com sua casca peluda eriçada)
(pervertidos sexuais chasers)
e eu vi o kiwi de uma perspectiva nuna antes vista, com o miolo se descolando, as sementes como formiguinhas numa linha tortuosa longitudinal através da fruta. só me restou abocanhar. e é por isso que só soube a potência real da fruta quando mergulhei nela com o mergulho trágico que os gregos chamavam de catábase.
se querem conhecer os vegetais na sua completude essencial, basta comê-los crus (toda sorte de pervertidos trocadilhistas) e incorporar suas propriedades.
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