depois de muitos anos instituída a lei do passe-livre no rio de janeiro, que isenta a estudantes da rede púb(l)ica, deficientes (que nem o sistema de transporte) e idosos (como as últimas datas de manutenção dos ônibus), resolvi pleitear meu pedido para ganhar uma carteirinha especial.
apesar de eu ainda ser aluna da rede pública, o benefício só vale pra estudantes dos primeiro e segundo graus, e não pra estudantes profissionais, tipo como ambiciono ser para todo o sempre. visto que a passagem inflacionou mais uma vez pra R$ 2,10 - e é chato ficar pegando moedinha no fundo da bolsa [oh, os posts tragicômicos]-, venci meu bloqueio e fui me reconhecer como deficiente física.
veja bem, tomar uma atitude dessas não é lá tão fácil. se eu não quis usufruir do benefício em 21 anos de existência, quer dizer que existe uma negação bem enraizada pro fato de que eu realmente tenho problemas neurológicos que comprometem minha locomoção. embora isso não me impeça de fazer grande parte das coisas que eu quero - tipo pular de uma pedra de 8 metros, ter esse problema congênito - que minha psicoterapeuta chama, hereticamente, de questão física - faz com que eu não me permita ser revoltada quanto a isso, ou ficar triste, ou me desaceitar, ou ficar frustrada com meu próprio corpo - coisa que 99% dos çerumanos nessa terra estão, gratuitamente. bem, no fim, essa pseudoaceitação comodista fez com que eu não me reconhecesse no dito grupo especial, termo cartilha-lulista pra deficiente físico. e não acho que ter uma carteirinha com esse termo vai me inserir nesse grupo imaginário-dantesco de coxos, aleijados, cegos, surdos, retardados mentais, síndromes de down etc. porque eu acho que eu acho que a vida de uma pessoa deficiente tinha que exigir ajustes mais significativos, comparados aos que eu faço na minha vida, para ser uma vida "normal". por exemplo, eu não preciso de cadeira de rodas, ou um cão/bengala pra me direcionar, ou um aparelho pra me ajudar a falar. tudo o que eu preciso fazer é ter um mínimo compromisso de aparecer 2 horas por semana às sessões de fisioterapia, pro resto da minha vida.
de vez em quando surge um sentimento de helplessness quando vejo escrita - porque escrito é mais definitivo - a frase sem possibilidades de cura, que encerrou meu atestado médico, documento exigido pra darem entrada no pedido da carteirinha de passe livre.
enfim, esse não era o propósito do post. era falar mal do carinha que me atendeu lá na sucursal da prefeitura.
primeiro que todas as informações do site tavam erradas, do endereço para atendimento aos documentos necessários. ou seja, rodei laranjeiras inteiro pra descobrir que não existe rua são salvador, 250. enfim não escureeeça/nem esquente a cabeeeça. daí eu chego na repartição pública e não consigo achar com quem falar sobre a carteirinha. aí rodo a casa (enorme, caindo aos pedaços e parecendo cenário de filme em que adolescentes começam a abrir fogo contra todo mundo), vou pro andar de cima, pergunto e as funcionárias públicas dizem: "é lá embaixo, na primeira porta, mas agora só 2a, o atendimento é só até as 4". "e que horas são?", pergunto "4 e meia", respondem, funcionariopublicamente. penso, "não é possível, saí de casa às 3", como é que eu andei uma hora e meia?". olho no relógio e era mentira das funcionárias públicas, eram 3:30.
humpf. é afobação de sexta-feira, eu até entendo. desço as escadas, toda me coçando de calor e suor e sabe-se lá o que habitava aquela casa suja e decrépita, e acho a pessoa que analisa e cadastra os pedidos de carteirinha de deficientes.
é um cara gordo, numa cadeira de rodas, cabeça branca e fumante, que, depois de meia dúzia de grosseirias e estupidezes, me manda esperar fora da sala, no corredor escuro e estreito, sem cadeira nem ventilador, em frente ao extintor de incêndio (e várias cenas terroristas vieram à mente). ok, espero, sem problemas, enquanto ele termina, funcionariopublicamente, a ficha de uma menininha que tinha ido lá com a mãe, e o cadastro tava demorando...
ele me chama, diz que precisava de comprovante de residência - eu não tinha levado, porque no site nada diziam sobre comprovante de residência. explico que não trouxe. ele pergunta onde moro, e, quando digo que é perto dali, ele resolve: "ah, então só 2a feira, se você morasse longe ainda quebrava teu galho...". respiro fundo 3 vezes e argumento, super bichogrilo na boa: "pô, moço". aí ele concorda. pega meus documentos, saca um marlboro red do bolso: "cigarro te incomoda?". àquela altura, seria custoso dizer que sim, então ele acende um sem a menor pressa. e começa a me perguntar as coisas do formulário.
uma pergunta bizarra faz com que ele me questione sobre minhas opções de lazer. mal consigo responder "leitura,...", ele preenche TELEVISÃO, porque "é o que as pessoas fazem em 99% dos casos". deu nervosinho de ser igual a 99% dos casos. pula a parte de esportes/ atividades físicas sem nem me perguntar se faço alguma, e já me categoriza como couch potato de marca maior (não que não seja, mas não podia ter me perguntado?). outra coisa: mente sobre onde eu faço fisioterapia, porque antecipa que a minha clínica é perto demais da minha casa, e, sei lá, eles podem não querer me dar o passe livre pra ir e voltar de lá de ônibus duas vezes por semana. sei lá o que ele pensou, ele não quis compartilhar e nem quis saber como eu me sentia ao vê-lo mentir sobre a minha vida pessoal (é minha vida pessoaaaaal)
se eu tivesse tido a chance de falar que gosto de viajar, de passear pela cidade, ir a bibliotecas, museus, cinema, teatro, praia, boate, será que os manda-chuvas do rio card iam querer me encorajar a me locomover mais do que se eu fosse reconhecida como alguém que só fica em casa, desmotivada, e vendo televisão (por mais que isso não esteja longe da verdade)?
por mais que a gente queira acreditar na gente que faz, infiltrada nos mecanismos do governo, invariavelmente nós vamos de encontro a gente lerda, mentirosa, de má vontade ou má fé, quando precisamos de algum serviço público.
é foda, viu?
apesar de eu ainda ser aluna da rede pública, o benefício só vale pra estudantes dos primeiro e segundo graus, e não pra estudantes profissionais, tipo como ambiciono ser para todo o sempre. visto que a passagem inflacionou mais uma vez pra R$ 2,10 - e é chato ficar pegando moedinha no fundo da bolsa [oh, os posts tragicômicos]-, venci meu bloqueio e fui me reconhecer como deficiente física.
veja bem, tomar uma atitude dessas não é lá tão fácil. se eu não quis usufruir do benefício em 21 anos de existência, quer dizer que existe uma negação bem enraizada pro fato de que eu realmente tenho problemas neurológicos que comprometem minha locomoção. embora isso não me impeça de fazer grande parte das coisas que eu quero - tipo pular de uma pedra de 8 metros, ter esse problema congênito - que minha psicoterapeuta chama, hereticamente, de questão física - faz com que eu não me permita ser revoltada quanto a isso, ou ficar triste, ou me desaceitar, ou ficar frustrada com meu próprio corpo - coisa que 99% dos çerumanos nessa terra estão, gratuitamente. bem, no fim, essa pseudoaceitação comodista fez com que eu não me reconhecesse no dito grupo especial, termo cartilha-lulista pra deficiente físico. e não acho que ter uma carteirinha com esse termo vai me inserir nesse grupo imaginário-dantesco de coxos, aleijados, cegos, surdos, retardados mentais, síndromes de down etc. porque eu acho que eu acho que a vida de uma pessoa deficiente tinha que exigir ajustes mais significativos, comparados aos que eu faço na minha vida, para ser uma vida "normal". por exemplo, eu não preciso de cadeira de rodas, ou um cão/bengala pra me direcionar, ou um aparelho pra me ajudar a falar. tudo o que eu preciso fazer é ter um mínimo compromisso de aparecer 2 horas por semana às sessões de fisioterapia, pro resto da minha vida.
de vez em quando surge um sentimento de helplessness quando vejo escrita - porque escrito é mais definitivo - a frase sem possibilidades de cura, que encerrou meu atestado médico, documento exigido pra darem entrada no pedido da carteirinha de passe livre.
enfim, esse não era o propósito do post. era falar mal do carinha que me atendeu lá na sucursal da prefeitura.
primeiro que todas as informações do site tavam erradas, do endereço para atendimento aos documentos necessários. ou seja, rodei laranjeiras inteiro pra descobrir que não existe rua são salvador, 250. enfim não escureeeça/nem esquente a cabeeeça. daí eu chego na repartição pública e não consigo achar com quem falar sobre a carteirinha. aí rodo a casa (enorme, caindo aos pedaços e parecendo cenário de filme em que adolescentes começam a abrir fogo contra todo mundo), vou pro andar de cima, pergunto e as funcionárias públicas dizem: "é lá embaixo, na primeira porta, mas agora só 2a, o atendimento é só até as 4". "e que horas são?", pergunto "4 e meia", respondem, funcionariopublicamente. penso, "não é possível, saí de casa às 3", como é que eu andei uma hora e meia?". olho no relógio e era mentira das funcionárias públicas, eram 3:30.
humpf. é afobação de sexta-feira, eu até entendo. desço as escadas, toda me coçando de calor e suor e sabe-se lá o que habitava aquela casa suja e decrépita, e acho a pessoa que analisa e cadastra os pedidos de carteirinha de deficientes.
é um cara gordo, numa cadeira de rodas, cabeça branca e fumante, que, depois de meia dúzia de grosseirias e estupidezes, me manda esperar fora da sala, no corredor escuro e estreito, sem cadeira nem ventilador, em frente ao extintor de incêndio (e várias cenas terroristas vieram à mente). ok, espero, sem problemas, enquanto ele termina, funcionariopublicamente, a ficha de uma menininha que tinha ido lá com a mãe, e o cadastro tava demorando...
ele me chama, diz que precisava de comprovante de residência - eu não tinha levado, porque no site nada diziam sobre comprovante de residência. explico que não trouxe. ele pergunta onde moro, e, quando digo que é perto dali, ele resolve: "ah, então só 2a feira, se você morasse longe ainda quebrava teu galho...". respiro fundo 3 vezes e argumento, super bichogrilo na boa: "pô, moço". aí ele concorda. pega meus documentos, saca um marlboro red do bolso: "cigarro te incomoda?". àquela altura, seria custoso dizer que sim, então ele acende um sem a menor pressa. e começa a me perguntar as coisas do formulário.
uma pergunta bizarra faz com que ele me questione sobre minhas opções de lazer. mal consigo responder "leitura,...", ele preenche TELEVISÃO, porque "é o que as pessoas fazem em 99% dos casos". deu nervosinho de ser igual a 99% dos casos. pula a parte de esportes/ atividades físicas sem nem me perguntar se faço alguma, e já me categoriza como couch potato de marca maior (não que não seja, mas não podia ter me perguntado?). outra coisa: mente sobre onde eu faço fisioterapia, porque antecipa que a minha clínica é perto demais da minha casa, e, sei lá, eles podem não querer me dar o passe livre pra ir e voltar de lá de ônibus duas vezes por semana. sei lá o que ele pensou, ele não quis compartilhar e nem quis saber como eu me sentia ao vê-lo mentir sobre a minha vida pessoal (é minha vida pessoaaaaal)
se eu tivesse tido a chance de falar que gosto de viajar, de passear pela cidade, ir a bibliotecas, museus, cinema, teatro, praia, boate, será que os manda-chuvas do rio card iam querer me encorajar a me locomover mais do que se eu fosse reconhecida como alguém que só fica em casa, desmotivada, e vendo televisão (por mais que isso não esteja longe da verdade)?
por mais que a gente queira acreditar na gente que faz, infiltrada nos mecanismos do governo, invariavelmente nós vamos de encontro a gente lerda, mentirosa, de má vontade ou má fé, quando precisamos de algum serviço público.
é foda, viu?
5 comentários:
grupo especial.
rainha da bateria.
te falar vernanda que aqui na civilizacao a situacao nao eh nada diferente. que as pessoas sao lerdas e tem preguica e mau humor e sao mal comidas e nao gostam de gente e a nossa vida fica na mao delas e na mao do humor delas. pessoal culto, que estudou latim por oito anos, que tem titulos (sim pois titulos aqui sao muuito importantes), nao conseguem entender que um outro pais possui um outro sistema - de ensino por exemplo. Pessoal do visto. Brother.... a mulher me fez esperar duas horas e pq eu nao tinha uma copia do passaporte (e tinha uma maquina de copiar do lado dela) ela disse funcionariopublicamente que "nao faco hoje nao". e me entregou tudo de volta. brother. foi um escandalo....
"se você morasse longe ainda quebrava teu galho...".
Velho gordo e fumante já é o que a gente imagina. Lá na biblioteca do 12º (Uerj) tem uma de uns 34, cara de barraqueira. Venenosa, faz tudo, mas faz na má vontade, como quem pensa "e vc nem pode me desacatar, HA!".
A minha defesa contra ela é fazer Xuxa. "Olááááááá! BOUA NOITÊÊÊÊ!" hahaha, ela fica (mais) puta (ainda).
gente... por mais que seja trágico e revoltante, não consegui não rir horroooooooores com esse post! tô rindo ateh agora! hahahaahahahahah!!!
dois... erica dizendo "aqui na civilização" e falando tudo o que ela disse depois soou completamente sem sentido.
civilização meu UH! humano eh tudo igual. pára de achar que em algum lugar desse mundo é melhor do que aqui... pfff... eh tudo a mesma merda.
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