sei é que depois da aula ofereci carona, achando que íamos nos prender no trânsito de 6:30 da linha vermelha, não ia dar nem pra sair da faculdade e se estivesse tocando outra coisa que não o SACAL do rachmaninov 3 - que ouço só pra agradar o sean, em winnipeg - talvez tivéssemos uma trilha sonora mais adequada para a discussão de relacionamento, a qual eu pretendia que ela começasse (a iniciativa foi toda minha de oferecer a carona até a zona sul, agora ela que se virasse pra tomar o controle da situação). nunca acreditei nesse modelo fixo de papéis vivenciais, sempre me agradou mais dividir o poder, mas puta que pariu isso não é diretório ou ditadura, é questionamento de relação (e não mais D.R., questionamento parece mais dinâmico e menos autoritário - e não consigo parar com as metáforas políticas, deve ser porque era o assunto dela quando se dirigia a mim) se eu achava que o sistema acadêmico estava se transformando num sistema empresarial, em que as pessoas se vendem, são compradas, controladas, agraciadas segundo os interesses dos manda-chuvas, sei lá, não tava prestando atenção, o rach 3 martelando na minha cabeça com aquele dó sustenido insistente, eu conseguia
até ver a figura musical piscando na minha frente, parecia uma sucessão de postes de luz que aparecem inesperadamente na nossa frente antes de a gente bater.
- e sei lá, o que você acha?
de modo que foi só o dó sustenido da buzina atrás de mim soar no mesmo solfejo do rachmaninov que eu quase bati mesmo nos postes, dei uma freiada brusca e olhei imediatamente à minha direita, pra bipartição dos peitos dela por causa do cinto de segurança. ela segurou no painel, botou a mão na minha perna freadora e falou "que filho da puta!", eu nem vi o que aconteceu, achei que a culpa tinha sido minha e dos dós sustenidos do rachmaninov, que só ouço pra manter alguma conexão com uma professora russa que me levava pra casa, uns anos atrás, como agora estou fazendo com a minha aluna. duvido que ela esteja mesmo indo pro centro estudar, como me avisou logo antes da entrada pra zona sul, onde ela mora, ela só está aqui pra me mostrar essa dicotomia de peitos que ela criou, que nunca foi tão grande, deve ser a TPM, e agora vêm todos os cálculos que consigo fazer com fases lunares, e como fernando pessoa chamava a lua - nossa senhora do silêncio.
- e sei lá, o que você acha?
de modo que foi só o dó sustenido da buzina atrás de mim soar no mesmo solfejo do rachmaninov que eu quase bati mesmo nos postes, dei uma freiada brusca e olhei imediatamente à minha direita, pra bipartição dos peitos dela por causa do cinto de segurança. ela segurou no painel, botou a mão na minha perna freadora e falou "que filho da puta!", eu nem vi o que aconteceu, achei que a culpa tinha sido minha e dos dós sustenidos do rachmaninov, que só ouço pra manter alguma conexão com uma professora russa que me levava pra casa, uns anos atrás, como agora estou fazendo com a minha aluna. duvido que ela esteja mesmo indo pro centro estudar, como me avisou logo antes da entrada pra zona sul, onde ela mora, ela só está aqui pra me mostrar essa dicotomia de peitos que ela criou, que nunca foi tão grande, deve ser a TPM, e agora vêm todos os cálculos que consigo fazer com fases lunares, e como fernando pessoa chamava a lua - nossa senhora do silêncio.
interrompi a séria inflexão dela a respeito dos sistemas eleitorais:
- caralho, que música chata!
tirei o cd e alguma coisa altamente sapatônica tocava na mpb fm, ana carolina ou isabela taviani, dá no mesmo, é tudo ruim, uma é cover e a outra simulacro, tudo bem, ela gosta, e começa a cantarolar olhando pela janela, às vezes para frente, para todos os sinais verdes que, miraculosamente, se interpelavam no nosso caminho, o trânsito mais livre que o de domingo, nem parece véspera de feriado e ela lá na faculdade comigo, até às 6, ainda ia estudar na biblioteca: ela não tem vida ou pensa que eu sou otária?
acabou a música, ela respirou de um jeito inicial de frase difícil de se dizer e desistiu. passou uma ambulância por nós. resolvi parar o carro num posto pra comprar um maço de cigarro, sei que ela detestaria esse ato, mas a situação tá muito difícil. você me espera? - espero. (como assim, vou sair do carro em pleno são cristóvão e ir andando até o centro?) respiro fundo. gasto 3 reais para respirar especialmente pela próxima meia hora. penso, no ato, em quão babaca é eu comprar um maço de cigarro, mas agora foda-se. já respiro monóxido de carbono 24 horas por dia, mesmo...
volto pro carro, ela nem liga pro pacotinho na minha mão, começo a catar o isqueiro nos bolsos, com o cigarro já na boca, o maço numa mão, a outra segurando o troco e ela acende um fósforo pra mim.
o descontrole emocional atinge seu ápice, torna-se descontrole físico e eu me deixo levar, como se por engano tivesse introduzido um falo enorme da boca e agora tivesse que terminar o trabalho sujo.
ainda paradas em frente à loja de conveniência, com vontade de fumar o maço inteiro tal qual estivesse num carro desgovernado, tensa pra cacete, parecia até que o joãozinho tinha dirigido até ali e parado pra esticar as pernas. enquanto fazia isso, eu aproveitava pra ver as estrelas e caía no buraco entre o barranco e o acostamento. realmente, quem olha muito pro céu não vê o que está à sua frente.
- não gosto de rádio, sabia? escolhe aqui um cd - abri o porta-luvas, entreguei o estojo de cds, botei o cigarro na boca e virei o volante, saindo do posto.
apesar de termos gostos parecidos, ali só tinha cd prepotente, que não necessariamente eu gosto de ouvir, mas tenho porque é obrigatório. ela passa flap flap flap... flap. miles davis, hermeto pascoal, beethoven e... T.a.T.u. (não sei como isso foi parar aí) até chegar no chico buarque, que tinha certeza que ela ia escolher.
ela pula umas 15 faixas, prum dueto horroroso dele com uma espanhola pra "mar e lua", a destruição completa e em espanhol de uma música linda e letra delicada.
estava pronta pra desová-la no sinal, como sempre faço com as pessoas, mas resolvi parar direito no estacionamento em frente ao prédio onde fica a biblioteca. ela desfez o sinal % do peito dela e respirou fundo. me olhou contraindo os lábios mais pra direita, junto com o correr do cinto de segurança, em dúvida. me mantive imóvel, devia estar com os olhos arregalados, expectante, tendo quase certeza do que ela ia fazer - igual quando amante, no meio dos beijos, tira os óculos - mas podia ser efeito da nicotina.
em um milissegundo ela mandou um foda-se, eu não vi, mas aconteceu, ficou registrado no inconsciente de alguém, e avançou, me beijando. em 10 segundos, o telefone dela começou a tocoar, ela pulou e atendeu, falando e juntando as coisas dela para saltar do carro. abriu-se uma cancela, um carro buzinou em mi, não sei, ou podia ser em lá, estava desorientada pra caramba enquanto ela batia a porta, dava um tchauzinho automático com a mão, na maior naturalidade, como se nada daquilo tivesse a perturbado, e ia entrando no prédio. ela vai mesmo estudar, na véspera de feriado.
e eu ainda tinha que atravessar a cidade pra chegar em casa. no celular, o namorado gritava, ela saía do carro e ia andando. atrás de mim a cancela, o guarda e o dó sustenido.
que merda, o trânsito parou.
- caralho, que música chata!
tirei o cd e alguma coisa altamente sapatônica tocava na mpb fm, ana carolina ou isabela taviani, dá no mesmo, é tudo ruim, uma é cover e a outra simulacro, tudo bem, ela gosta, e começa a cantarolar olhando pela janela, às vezes para frente, para todos os sinais verdes que, miraculosamente, se interpelavam no nosso caminho, o trânsito mais livre que o de domingo, nem parece véspera de feriado e ela lá na faculdade comigo, até às 6, ainda ia estudar na biblioteca: ela não tem vida ou pensa que eu sou otária?
acabou a música, ela respirou de um jeito inicial de frase difícil de se dizer e desistiu. passou uma ambulância por nós. resolvi parar o carro num posto pra comprar um maço de cigarro, sei que ela detestaria esse ato, mas a situação tá muito difícil. você me espera? - espero. (como assim, vou sair do carro em pleno são cristóvão e ir andando até o centro?) respiro fundo. gasto 3 reais para respirar especialmente pela próxima meia hora. penso, no ato, em quão babaca é eu comprar um maço de cigarro, mas agora foda-se. já respiro monóxido de carbono 24 horas por dia, mesmo...
volto pro carro, ela nem liga pro pacotinho na minha mão, começo a catar o isqueiro nos bolsos, com o cigarro já na boca, o maço numa mão, a outra segurando o troco e ela acende um fósforo pra mim.
o descontrole emocional atinge seu ápice, torna-se descontrole físico e eu me deixo levar, como se por engano tivesse introduzido um falo enorme da boca e agora tivesse que terminar o trabalho sujo.
ainda paradas em frente à loja de conveniência, com vontade de fumar o maço inteiro tal qual estivesse num carro desgovernado, tensa pra cacete, parecia até que o joãozinho tinha dirigido até ali e parado pra esticar as pernas. enquanto fazia isso, eu aproveitava pra ver as estrelas e caía no buraco entre o barranco e o acostamento. realmente, quem olha muito pro céu não vê o que está à sua frente.
- não gosto de rádio, sabia? escolhe aqui um cd - abri o porta-luvas, entreguei o estojo de cds, botei o cigarro na boca e virei o volante, saindo do posto.
apesar de termos gostos parecidos, ali só tinha cd prepotente, que não necessariamente eu gosto de ouvir, mas tenho porque é obrigatório. ela passa flap flap flap... flap. miles davis, hermeto pascoal, beethoven e... T.a.T.u. (não sei como isso foi parar aí) até chegar no chico buarque, que tinha certeza que ela ia escolher.
ela pula umas 15 faixas, prum dueto horroroso dele com uma espanhola pra "mar e lua", a destruição completa e em espanhol de uma música linda e letra delicada.
estava pronta pra desová-la no sinal, como sempre faço com as pessoas, mas resolvi parar direito no estacionamento em frente ao prédio onde fica a biblioteca. ela desfez o sinal % do peito dela e respirou fundo. me olhou contraindo os lábios mais pra direita, junto com o correr do cinto de segurança, em dúvida. me mantive imóvel, devia estar com os olhos arregalados, expectante, tendo quase certeza do que ela ia fazer - igual quando amante, no meio dos beijos, tira os óculos - mas podia ser efeito da nicotina.
em um milissegundo ela mandou um foda-se, eu não vi, mas aconteceu, ficou registrado no inconsciente de alguém, e avançou, me beijando. em 10 segundos, o telefone dela começou a tocoar, ela pulou e atendeu, falando e juntando as coisas dela para saltar do carro. abriu-se uma cancela, um carro buzinou em mi, não sei, ou podia ser em lá, estava desorientada pra caramba enquanto ela batia a porta, dava um tchauzinho automático com a mão, na maior naturalidade, como se nada daquilo tivesse a perturbado, e ia entrando no prédio. ela vai mesmo estudar, na véspera de feriado.
e eu ainda tinha que atravessar a cidade pra chegar em casa. no celular, o namorado gritava, ela saía do carro e ia andando. atrás de mim a cancela, o guarda e o dó sustenido.
que merda, o trânsito parou.
4 comentários:
:) gostei
nunca um texto seu me prendeu tanto... acho q nunca tinha gostado tanto, tbm.
quero comentar com calma qndo estiver com menos sono.
=***
Pena que blog não tem um link chamado "aplaudir" e outro chamado "putaqueparil" no final do post. Precisava clicar.
AMEI, principalmente as brincadeiras dos peitos e dos postes.
Caguetá-la-ei para alguma editora, ce vai ver!
hahahahaahah adorei a sapatonági
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