de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

29.10.08

esse texto é tão irônico que até eu me perdi

vinte e cinco anos atrás caía uma certa poetisa de 33 anos por uma janela de copacabana. hoje cinda citou um fragmento de ana cristina césar (que acha que é fernando pessoa, e acaba sendo corroborada por uma cronista, nuns globos atrás - pelo "dom" de ser pela fragmentação), que a flagra perfeitamente: "sou uma mulher do século dezenove disfarçada em século vinte". uma coisa assim (tá, eu colei do google). século XIX porque não deixa de ser mulherzinha quando era pra se abandonar nome, gênero, espaço e tempo. continua mulherzinha porque tem um livro chamado "a seus pés" e não tem como isso não parecer submissão ao amante. porque guardava guardanapos de bar com rabiscos numa pasta rosa, que estão sendo lançados agora, com o nome de "antigos e avulsos". porque não consegue escrever falo sem um ruborzinho de menina de 13 anos, atentando pra modalidade substantiva do termo - esquecendo-se de que a piada é velha, desde luiza neto jorge ("falo/com uma agulha de sangue/a coser-me todo o corpo/à garganta"). porque imita luiza neto jorge com muito menos humildade do que se compara a fernando pessoa. porque tinha caio fernando abreu - que equivale a ela na imitação e falsidade - como melhor amigo gay.
tá, metade disso eu tô inventando ou falando sem conhecimento de causa. mas falando sério, tem uma hora pra ler ana cristina césar. borges diz que poe e wilde são autores pra se ler jovem: "porque se a pessoa chega a eles quando está velha, grisalha e entrada em anos, essa leitura dificilmente pode ser prazeirosa". acc é isso. clarice também. mas clarice ainda tem riqueza de imagem, complexidade na voz, crise de gênero, dá pra espremer suco dela pro resto da vida. todos os que falam que não gostam de clarice é porque não foram - pelo menos mentalmente - meninas de 17 anos. 17 anos é a idade que você tem quando diz "essa mulher me traduz". e isso talvez equivalha, pros meninos, a baudelaire e poe. aos 17 anos você começa a pensar, a achar que sabe escrever o que pensa. a achar que pode ser fernando pessoa. mas se chegou os 33 e você ainda não é, tendo, no máximo, se formado em letras pela puc e estudado com a cleonice, você se joga da janela (ironicamente, sorri pra mim um livro da sophia cuja capa é uma janela ensolarada. dá vontade de bater na madeira verde, soprar as cortinas e dizer: "anaaaaaaaaaa! ô anaaaaaa! se joga!").
isso tudo é raiva porque nunca consegui fruir ana cristina césar. no máximo, me lembrar da erica na minha casa, eu com 18 anos, ela entoando "tenho ciúmes desse cigarro que você fuma tão destraidamente" de maneira obssessiva, enquanto eu furava o copo de plástico com a brasa. era minha idade de gostar de ana cristina césar e feminismo e contradições entre ser emancipada ou ser mulher do século XIX. e eu não aproveitei.
falta um pouco mais de 10 anos pra eu ter 33. anos pra treinar a mão até achar que sou poeta. não preciso que me publiquem porque já tem internet. não consigo ser mulherzinha: "diferentemente me concebo e só do avesso/ o formato mulher se me acomoda". mas ainda preciso de luiza neto jorge.

5 comentários:

jovem broto disse...

tem hora, tem hora sim. mas não sei se é cronológica.
caio fernando abreu tem hora cornológica pra ler, por exemplo.

Rafael Costa disse...

tenho uma amiga que estuda a ana. muita coisa importante dita aqui: mas o que eu mais gostei foi a questã da idade-para-ler. A Ana é pra ler antes dos 25. E talvez seja pra ler uma vez só. Quanto a Clarice: acho que precisaria envelhecer uns 20 anos para melhor aproveita-la.

tatiane marchi disse...

(A amiga do Rafa que estuda a dita cuja)
Concordo em partes com seu texto. Até porque você, ironicamente, mexe com o “ego” dos leitores de A.C., e sendo eu uma leitora interessa poderia acabar me denunciando, ao defender alguma posição extremista-de-galera-com-visão-crítica-e-amor-ao-'objeto'-de-estudo.
Feita essa ressalva-denúncia, digo que interpretações pedantes-feministas ou autobiográfica não me interessam. Acho que na poesia de Ana dá pra se ver tanto trabalho com literatura (ânsia de demonstra na poética sua erudição? Talvez...nem importa), que talvez permita passar por cima de poemas um tanto quanto enjoadinhos (como os que vc citou) e ler sem medo de sofrer adolescentemente um poema como o de título: “Tu queres sono: despe-te dos ruídos “.

Unknown disse...

Quando li ana c pela primeira vez eu era o início de uma teenager atrasada, já com 19 ou 20 e poucos anos. a minha vida aconteceu, tenho a impressão, dos 18 aos 22. o ciúme do cigarro foi a primeira coisa que eu li, e back then, feminismo era um movimento de algumas mulheres que não cabia muito no meu presente, era um passado resolvido cujo resultado eu usurfruia, emancipação e freud eram coisas de um futuro que eu ainda não imaginava meu. concordo que ana c. tem tempo e também concordo que não tem cronologia.

quando eu quotei o cigarro pra você, aquilo era eu início de teen atrazada tentando me colocar, atravez de um quote, em situações lindas de um romantismo que eu alimentava e que era traduzido modernamente pela imagem de um cigarro num fragmento deslocado. no fim das contas era eu me querendo pra voce e voce me dando o toco: o que tornava o fragmento da ana realidade e a minha inserção no papel do "eu ciumento" mais real ainda...satisfazendo assim meu completo desejo de ser traduzida pela poeta atravéz daquela imagem específica.

hj em dia nao consigo ler muito mais ana c. embora tenha me identificado um pouco com as coisas escritas na fase da vida dela enquanto ela estava estudando em londres. essa coisa de estar no exterior. mas ao inves dela só me encontro total em eliot que tambem se foi, e em drummond e seu rio de janeiro.

na época que eu gostava muito de ana c. eu era poesia e achava que era fernando pessoa. e ainda acho. e acho que todos nós achamos, pelo menos por alguns momentos, e acho que ela colocou isso de uma forma bem pragmatica e bonita.

imitação é uma coisa que não sei se se discute muito. desde que nascemos tudo o que fazemos é imitar, e depois dizemos do conjunto das imitações "sou eu" .. e quando criamos, criamos a partir de imitações... e a mímesis foi a explicação mais bonita que eu já ouvi pra quando o desespero de não haver um original, apenas farsas, surge. we are just impostors in this country.

quando ganhei "a teus pés", talvez pelo solipsismus que disseram que sou eu, não parei pra pensar no título, e confesso nunca ter pensado, até ler o seu post, como a submissão de uma mulher . eu pensava em alguem aos meus pés (e é aí que entra o solipsismus) e não eu aos pés de alguém... ou a ana... no pé de qualquer outro. strange! ... talvez aí é que esteja o "tempo pra ler"... talvez você já tenha estudado muito woman studies a ponto de impedir uma leitura da ana c. free dessas questões de mulherzinha coisa e tal.


eu vejo ela como uma carioca daquelas tipo a gente, que ama literatura e que acha que é poeta, que vive a vida observando e ama silenciosamente numa festa e beija sem entender por que a procura de respostas e têm amigos que acham que juntos são virginia woolf e sua gang e se reúnem pra celebrar o próprio intelecto através de cartas ou de experiencias e acreditam no que fazem e por isso acabam realmente mudando um pouco de alguns mundos, como o meu por exemplo.

o misterioso "por quê?" de ela se estabacar da janela é talvez o nosso "por quê?" de cada dia que não nos deixa em paz, especialmente na nossa solidão e nos nossos medos e na busca diária pela organização e implementação de planos enquanto tentamos advinhar o que é que realmente somos ou o que é que realmente queremos.

socorro eu preciso lembrar quando se usa z ou s.
essa história toda me fez pensar no dia da independencia fancha e de nostalgia fui ver aquele cd que você me deu no dia que fui na sua casa pela ultima vez e ganhei uma caipivodka de ti. vi alguns dos vídeos e senti saudades de mim e fico pensando sériamente com tristeza da impossibilidade de isso talvez ser realidade de novo. lets make it happen? como fas?

bjomeliga

Anônimo disse...

Rafael Costa disse...
tenho uma amiga que estuda a ana. muita coisa importante dita aqui: mas o que eu mais gostei foi a questã da idade-para-ler. A Ana é pra ler antes dos 25. E talvez seja pra ler uma vez só. Quanto a Clarice: acho que precisaria envelhecer uns 20 anos para melhor aproveita-la.




hsuahsuahsuahsuahsuashauhs

Um emo com-visão-crítica
hauhsuahsuahsuahs