sinto que plantei uma sementinha da discórdia aqui em casa: estávamos almoçando nessa domingueira do meu brasil e minha madrasta comenta sobre as salas de aula da ESPM.
- lá todas as carteiras têm um laptop, são 20 lugares, um computador pra cada aluno.
eu sou ex-aluna de um colégio público de elite (é, pior que é, só no brasil...), o pedro II. sempre sofri com greves, falta de verbas, má administração, incompetência funcionalista-pública - apesar de tais problemas serem muito menos graves no meu colégio e na minha unidade (U.H.II! HAHA) do que em outras escolas estaduais e municipais.
tendo estudado num lugar desse, com todo tipo de gente - dos mais emergentes do leblon aos habitantes do morro da babilônia, dona marta, pavão-pavãozinho e outros -, a minha formação foi bastante humanista e inclusiva, de modo que não consigo achar normal:
- que alguém pague 4.000 reais por mês pra cursar uma universidade, num país onde o salário mínimo é 10% disso - depois de muita melhora. ainda mais se em HARVARD a anuidade é 4.000 dólares;
- que as tais universidades implementem elevadores de última geração, laptops state-of-the-art, ares condicionados e não invistam nos próprios docentes da instituição, quanto menos em bibliotecas e recursos humanos;
- que do lado de fora da porta dessa universidade, toda de vidro, durma um mendigo maltrapilho, drogado e ferido, que ouve passivamente o ronronar dos carrões importados dos alunos, os quais mal o vêem;
- que pela janela dessas salas refrigeradas se veja gente morrendo de fome, assaltando, traficando e se prostituindo para ver se se consegue algum sustento, enquanto os futuros marqueteiros brincam no msn e no orkut e não prestem atenção na aula;
- que essas universidades particulares e a própria ufrj sejam colonizadas por grandes empresas, como a petrobras, que investem pesado em tecnologia e ciências exatas, sem dispender um terço de toda essa verba para a cultura e arte nas universidades;
- que o orçamento das universidades públicas seja empregado tão desigualmente, de maneira a deixar o teto do instituto de filosofia e ciências sociais caindo, as bibliotecas da letras com goteiras, os professores sem dedicação exclusiva, turmas sem professores;
- que os neoliberais com carapuça de esquerdistas (a.k.a. minha família) ajam como os bonzinhos que, "ainda bem", pagam mensalidades absurdas para manter seus filhos na escola, por desacreditarem no ensino público de qualidade;
- que as ditas instituições educacionais públicas de qualidade sejam inchadas por aristocratas decadentes da burguesia-classe-média, ao ponto de se precisar de cotas para suprir o descaso secular com populações desfavorecidas;
- que a universidade federal burguesa FORMATE esses JEGUES que não lutam por seus direitos, não sabem o que querem, mas decoraram a escalação do internacional de pindamonhangaba futebol clube e as falas do último filme do woody allen;
- que os D.A.s dos riquinhos da puc sejam muito mais reativos do que os elitistas fa universidade federal da zona sul, que lutam para o seu centro não ir para o fundão só porque querem que a faculdade seja perto de casa;
- que todos nasçam com dois braços, dois olhos, dois ouvidos (iguais) mas que suas necessidades tenham que ser adaptadas ao acúmulo de capital de que dispõem;
- que o dito acúmulo de capital seja equivalente ao pão que se ganha "não com o seu próprio suor, mas com o suor dos outros"*;
- que eu seja ridicularizada por defender que todos tenham um mínimo de saúde, educação, lazer, comida e vestuário.
quem sabe assim, em vez de "todo mundo ser rico" e esbanjar, e cultivar o desejo do supéfluo, e inventar cada vez mais necessidades, as "pessoas sensíveis"* não se liguem de que só precisam mesmo é de ar, água, comida, abrigo e igualdade (ar, água e comida esses que estão faltando justamente por culpa desse sistema)?
falei, à mesa, uns 5% de tudo isso que escrevi aqui. e saí derrotada. me pediram pra me acalmar e ir tocar violão e ler poema. e eu fui. mas todo mundo continuou discutindo a questão enquanto eu cada vez mais ficava desesperançada com o futuro da humanidade.
* "as pessoas sensíveis", in livro sexto. sophia de mello breyner andresen.
- lá todas as carteiras têm um laptop, são 20 lugares, um computador pra cada aluno.
eu sou ex-aluna de um colégio público de elite (é, pior que é, só no brasil...), o pedro II. sempre sofri com greves, falta de verbas, má administração, incompetência funcionalista-pública - apesar de tais problemas serem muito menos graves no meu colégio e na minha unidade (U.H.II! HAHA) do que em outras escolas estaduais e municipais.
tendo estudado num lugar desse, com todo tipo de gente - dos mais emergentes do leblon aos habitantes do morro da babilônia, dona marta, pavão-pavãozinho e outros -, a minha formação foi bastante humanista e inclusiva, de modo que não consigo achar normal:
- que alguém pague 4.000 reais por mês pra cursar uma universidade, num país onde o salário mínimo é 10% disso - depois de muita melhora. ainda mais se em HARVARD a anuidade é 4.000 dólares;
- que as tais universidades implementem elevadores de última geração, laptops state-of-the-art, ares condicionados e não invistam nos próprios docentes da instituição, quanto menos em bibliotecas e recursos humanos;
- que do lado de fora da porta dessa universidade, toda de vidro, durma um mendigo maltrapilho, drogado e ferido, que ouve passivamente o ronronar dos carrões importados dos alunos, os quais mal o vêem;
- que pela janela dessas salas refrigeradas se veja gente morrendo de fome, assaltando, traficando e se prostituindo para ver se se consegue algum sustento, enquanto os futuros marqueteiros brincam no msn e no orkut e não prestem atenção na aula;
- que essas universidades particulares e a própria ufrj sejam colonizadas por grandes empresas, como a petrobras, que investem pesado em tecnologia e ciências exatas, sem dispender um terço de toda essa verba para a cultura e arte nas universidades;
- que o orçamento das universidades públicas seja empregado tão desigualmente, de maneira a deixar o teto do instituto de filosofia e ciências sociais caindo, as bibliotecas da letras com goteiras, os professores sem dedicação exclusiva, turmas sem professores;
- que os neoliberais com carapuça de esquerdistas (a.k.a. minha família) ajam como os bonzinhos que, "ainda bem", pagam mensalidades absurdas para manter seus filhos na escola, por desacreditarem no ensino público de qualidade;
- que as ditas instituições educacionais públicas de qualidade sejam inchadas por aristocratas decadentes da burguesia-classe-média, ao ponto de se precisar de cotas para suprir o descaso secular com populações desfavorecidas;
- que a universidade federal burguesa FORMATE esses JEGUES que não lutam por seus direitos, não sabem o que querem, mas decoraram a escalação do internacional de pindamonhangaba futebol clube e as falas do último filme do woody allen;
- que os D.A.s dos riquinhos da puc sejam muito mais reativos do que os elitistas fa universidade federal da zona sul, que lutam para o seu centro não ir para o fundão só porque querem que a faculdade seja perto de casa;
- que todos nasçam com dois braços, dois olhos, dois ouvidos (iguais) mas que suas necessidades tenham que ser adaptadas ao acúmulo de capital de que dispõem;
- que o dito acúmulo de capital seja equivalente ao pão que se ganha "não com o seu próprio suor, mas com o suor dos outros"*;
- que eu seja ridicularizada por defender que todos tenham um mínimo de saúde, educação, lazer, comida e vestuário.
quem sabe assim, em vez de "todo mundo ser rico" e esbanjar, e cultivar o desejo do supéfluo, e inventar cada vez mais necessidades, as "pessoas sensíveis"* não se liguem de que só precisam mesmo é de ar, água, comida, abrigo e igualdade (ar, água e comida esses que estão faltando justamente por culpa desse sistema)?
falei, à mesa, uns 5% de tudo isso que escrevi aqui. e saí derrotada. me pediram pra me acalmar e ir tocar violão e ler poema. e eu fui. mas todo mundo continuou discutindo a questão enquanto eu cada vez mais ficava desesperançada com o futuro da humanidade.
* "as pessoas sensíveis", in livro sexto. sophia de mello breyner andresen.
Um comentário:
que essas universidades particulares e a própria ufrj sejam colonizadas por grandes empresas, como a petrobras(...)
deixa de ser corporativista, nanda.
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