quando sinto minha vida amorosa complicada, penso que a forma de amar que mais se aproxima da minha é a de vinicius de moraes, que, não sei se aqui já disse, seria um ótimo amante meu - e eu dele. diante da arte do desencontro que é como a vida se tem mostrado pra mim até agora, saco uns volumes do poetinha da estante e subitamente me sinto compreendida. não completa, porque meu encontro com ele seria impossível - o que de repente aumenta a angústia -, mas de certa forma não só-no-mundo. quantas mulheres será que ele comeu e jogou fora entre os nove casamentos...?
do que resta, tenho sempre uma memória, talvez doída, com uma nódoa alegre - nódoa esta que garante o apego ao sentimento da perda: "de tudo fica um pouco" - "Do mal ficam as mágoas na lembrança,/ E do bem, se algum houve, as saudades".
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
(...)
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.
(...)
[o haver.poema inteiro aqui]
De tudo ficou um poucoagora, sei lá eu. o meu viver é te esperar pra te dizer adeus...
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
(...)
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. (...)
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada (...)
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
(...)
[carlos drummond de andrade.resíduo]
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