de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

2.12.09

estou pra escrever um post sobre o mar de sophia há tempos, embora minha isenção seja nenhuma, já que é um disco em homenagem à poetisa que estudarei no mestrado.

o disco começa com uma inspiração e termina num suspiro, entre oxum e nanã, passando por todos os orixás femininos. terreno de água, já diria bachelard, é essencialmente feminino, e mesmo todos nós na nossa cultura diária vinculamos os derramamentos, a volubilidade, a facilidade de adptação dos materiais à personalidade de anima.

mas aí a questão é: não morria de amores pelo mar de sophia, de bethânia, não, das primeiras vezes que ouvi. foi preciso uma espécie de deslumbramento pelos poemas marítimos da autora de dia do mar e navegações pra que as músicas penetrassem bem. só a percussão inicial, acompanhada da respiração incial e do poema de abertura - "quando eu morrer, voltarei para buscar/ os instantes que não vivi/ junto ao mar" - (os versos de "inicial" virão depois) já contribuem pra toda a atmosfera marítima de adoração pagã. o mar de sophia de mello breyner andresen conjuga questões imprescindíveis à lusitanidade, sim. mas é mais. bebendo simultaneamente das fontes gregas e das fontes com estátuas pessoanas, sophia celebra uma "consciência múltipla" (heteronímica, quase) e "divina" (o que possibilitou diálogos fecundos com deuses anímicos gregos e africanos). o mar é mais do que o veículo para se "espalhar por toda parte" a fé e o império dilatados, como queria a epopeia camoniana. o mar é a consciência da presença das coisas, da natureza, de uma limpidez solar própria da esfera divina.

"o teu destino deveria ter passado nesse porto/ onde tudo se torna/ impessoal e livre/onde tudo é divino como convém ao real", diz sophia a seu conterrâneo fernando pessoa.

mas falávamos da divindade do canto de maria bethânia, que me trouxe primeiro isso em verso e voz, pelo disco de 2006. os arranjos límpidos com cordas e percussões medidas trazem o barulho bom das águas de modo que nem o chato do arnaldo antunes se afoga. "debaixo d'água" tem o batuque de bacia com água sendo manipulada, combina muito com o verão.

"as praias desertas" é extremamente "pulável", já que a dramaticidade de elizeth cardoso não poderia se dar - numa reinvenção da roda - pela rainha do drama (3º ato). a água de "lágrima", maravilha melancólica de roque ferreira, cumpre muito mais esse espírito de dilaceramento, consertado (com s mesmo) na canção de tom jobim. acaba que "as praias desertas" ficam numa "onda" muito mais condizente com o lançamento mais recente de bethânia, tua (pelo qual também não morri de amores, justamente pela pasmaceira pseudo-smooth-jazzística-novela-das-seis-tarde-em-copacabana). e do tua só se salvam mesmo a música com o lenine, "o nunca mais" - que funciona como "lágrima" II, a vingança - e "domingo". o encanteria é muito melhor.

suspiro final, varrendo a rua, com nanã, suspiro de morte na vida branca. obrigada, maria bethânia, por me fazer conhecer sophia de mello breyner. aposto que ela adoraria te ouvir falar a palavra "coqueiro", você o faria ficar muito mais vegetal!

Um comentário:

rafael disse...

pela primeira vez desde que leio seu blog, encontrei um texto que não parece ter sido escrito por vc; por essa sua alma sensível.

também agradeço maribeth pelo achado de sophia.

(poetisa é uma palavra muito portuguesa, me incomoda).

louco pra ver vc, em janeiro.