de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

3.4.10

mme. karienina, c'est moi.

estive pensando nas manias adúlteras das mulheres da literatura do século XIX. se elas não estavam à procura de um bofe com dotes - lutando com suas irmãs e primas para conquistá-los -, elas traíam os ditos cujos com bofes com dotes. esses, que conquistavam essas donzelas bem-casadas, eram brasileiros, marginais, sem empregos, sem inclinações para o mundo dos monopólio de terras e negócios, eram seres que se infiltravam nos saraus e nas famílias de bem e levavam as mocinhas para o mau caminho.

as adúlteras, invadidas pelo sentimento de ennui, iludidas por romances e novelas de cavalaria, viam neste ser estrangeiro um escape da vida absolutamente entediante e burguesa que levavam. não parecem ter um pingo de culpa cristã, são umas sem-moral, não padecem de dúvida: sabem que o acordo que têm com os maridos não é amor. enquanto caem desfalecidas na frente dos olhos da sociedade, sua interioridade anímica entende que só um aventureiro pode lhe deixar em infatuação. assim, dissimuladas, regem muito bem uma vida dupla: se se pensa pela via da paixão, elas nada podem fazer frente ao desejo; se as pensamos pela via da razão, elas sabem muito bem o que fazem e intencionam sacudir os maridos - tirá-los da cegueira propulsionada pelo tédio, enquanto agem egoisticamente.

mas o personagem mais intessante do triângulo, é claro, seria o preterido. esses maridos que, ou são TAPADOS, ou escolhem fechar os olhos. em anna karienina, karienin é um bruto, frio, resolve continuar a relação para mater as aparências. charles bovary é um bocó: um daqueles genros que as sogras adoram, homem perfeito para a mocinha - isso se ela não fosse uma depravada que não pode ficar presa à vida de dependencia ao marido. enquanto ele a ama até o seu fim trágico, ela arranja todos os artifícios para mentir, enganar e servir de base para a construção de uma capitu culpada. na versão brasileira dos triângulos oitocentistas, as coisas são mais complexas, mas talvez se já não houvesse uma bovary completamente independente, bentinho não seria tão paranoico e impotente a ponto de mobilizar uma "plateia" de leitores - que não entendeu nada - num juízo contra a dona dos "olhos de ressaca".

aliás, a não ser por bentinho, que num exame de consciência - anos depois, como dom casmurro - resolve "atar as pontas da vida", os personagens-maridos são figuras planas, preteridas pelos autores, justamente para, numa sociedade machista e patriarcal - valorizada no século XIX -, alevantar a imagem da mulher independente que decide tudo, inclusive trair. parece, da mesma forma, que esses homens abandonados não sofrem, e, não podendo se importar menos com a traição, limitam-se a ficar com ciúmes ou aprisionar as mulheres - tarefa que falha, é claro.

as adúlteras do século XIX não têm dúvidas ao trair, não têm dúvidas que seus maridos são insuficientes: anna karienina se permite mesmo ter o filho bastardo do amante. e não é só que o marido é insuficiente: bovary precisa morrer - a vergonha social deslinda em um abismo sem salvação. graças à "boa escolha dos empregados", segundo machado de assis, a heroina de eça - em o primo basílio - tem sucesso na empreitada do romance escondido. mesmo assim o castigo social é tão grande que ela perde os cabelos. capitu é melhor sucedida: emancipa-se e o romance termina com ela vivinha da silva.

ainda assim a psique dos maridos fica intocável - de novo excetuando-se a de bento santiago . por baixo da frieza que justifica a traição das mulheres e da sua cegueira auto-absorvida, esses homens permanecem um mistério. será que eles também não são uns injustiçados?

2 comentários:

jovem broto disse...

um daqueles genros que as noras adoram
também confundo.

fernanda disse...

foi um ato falho, era sogras. já consertei :)