de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

17.5.10

a dor

pelo menos o homem em coma, feito pedra, tem alguém que lhe cuide, incessantemente. eu sou feita penha-penhasco, precipitando o abismo, perplexa em abandono. quem é que está sobre meu leito? só tenho quem chore à distância, por sobre a cova, nenhum que tenha estado pacientemente ao lado.

a vida é assim, amigos-da-onça, é muito dura de se enfrentar sozinho (com o mito de que se está na multidão). e sozinhos estamos sempre, até a morte inexorável; não há novidade em termos de morrer desacompanhados.

(meu primeiro passo para a solidão, antes do desencarne, é ter essa consciência, morando sozinha e tentando resolver tudo por mim, mobilizando o mínimo possível o destino alheio. nessa destituição de ego, procuro aprender a pedir ajuda sem me sentir culpada, ou atrapalhando, ou exonerando.)

e o que fazem é querer me dopar, a enfiar-me agulhas com anestésicos, tudo fruto de uma sociedade doente na raiz, que não sabe lidar com a dor. então etiquetam-me de acordo com a intensidade da dor - como se a real dor pudesse ser medida - e visto uma pulseira verde como os verdes campos a mim vetados, porque frequento hospitais de luz fria, corredores verde-doença.

o que me fazem é trocar meu sangue por esse líquido incolor, não sei se tentam me tranquilizar ou me drogar, simplesmente. mas resisto, bravamente, porque estou sozinha, e a droga que me enfraquece o sangue vigoroso acende a indignação. insurjo-me contra me deixarem num canto qualquer, numa cadeira esterilizada em meio à sujeira semi-aparente.

etiqueta verde campo numa mão, líquido verde-morte na outra, espero o diagnóstico que me porá mais uma vez imóvel.

6 comentários:

jovem broto disse...

mto bom. finge tão completamente... :P assisti aula do manuel na quinta: "essa dor do poeta é porque ele deu uma topada no sofá? tomou uma canelada jogando futebol?"
mas que história é essa de hospital, hein? (jun veri-ficando a literatura)

fernanda disse...

ué, jun, o poeta não é um fingidor?

eu dei uma topada no sofá, aí fui ver se tinha quebrado o pé de novo. não tinha...!

Samuca disse...

Vamos fazer uma campanha por hospitais com luz quente, indireta.

jovem broto disse...

luz negra no hospital pra usar acessórios neon.
e eu acertei a topada no sofá? cacete, estou muito profético ultimamente.

fernanda disse...

não, jun, tava de brinks, eu tropecei na rua, mesmo...

Samuca disse...

Acho que esse é o meu post preferido da Fernandinha. Vai entrar pros anais.