"case of you" era dele. descobri o blue numa época em que absolutamente nada fazia sentido, e tudo o que eu fazia era elope. but not to get married. i eloped to canada.
de modo que a única coisa que fazia sentido era a vida que eu tinha vivido, brevemente, junto da "vida que poderia ter sido e que não foi". e tudo o que eu queria era um "rio em que eu pudesse patinar pra longe".
o rio em que não neva, "fica bem verdinho", estava aqui: uns 40 graus acima da temperatura do gelo pra patinar. eu chorava porque eu sabia que depois eu ia rir, até que eu chorasse de novo - e dava um desespero de essa inconclusividade levar inexoravelmente ao mesmo ciclo vicioso. o que queria dizer: eu ia chorar, de novo, de novo, de novo, e querer fugir.
estava de viagem marcada para o gelo, pra passear beira-rios congelados. numa dessas manhãs de confusão - é horrível, toda vez, acordar, nessas épocas em que o sonho te dá perspectivas muito melhores do que a realidade -, engolido um café, encontrei no suplemento cultural do jornal um artigo sobre blue, que é, nomeadamente, o objeto desse texto. o jornalista qualificava o álbum de joni "triste pra chuchu", e a verdade era: não há disco que entenda mais fundamente a solidão do que blue. "the bed is too big/the frying pan is too wide". "if you want me i'll be in the bar". "only a dark cocoon before i get my goooooorgeous wings and fly away". "we don't need a piece of paper from the city hall keeping us tied and true, you know".
eu tinha feito isso, perdido "o best baby that i'd ever had" (e não era o best baby, que besteira isso!), ainda querendo beber caixas e caixas do néctar agridoce daquela pessoa, embora nosso término tivesse sido horrível: eu quis magoar pra me vingar, mas sabia que essa não era a resposta, sabia que eu não podia reagir, eu tinha passado por uma educação estoica poucos meses antes, um mergulho na autoconsciência que ia mudar minha prática pro resto da minha vida. não devia reagir jogando gasolina no fogo da dor que ele tinha me causado. e era principalmente esse silêncio, minha impossibilidade de ser honesta e em contato com o que eu realmente sentia, eram os vinte mil eu-te-amos engasgados... era isso que prejudicava só a mim - infelizmente -, de modo que derramar tudo isso, explodir maldosamente na cara dele todo o mal que eu mesma me causei só ia me trazer sofrimento. era isso que eu não entendia. a partir de como eu agia, silenciando, posso até pensar que eu entendia: não causava mal a ele. mas não compreendia como essa atitude era maléfica pra mim, me deteriorava, me aniquilava, me dissolvia.
a mãe dele me avisou. eu tinha conhecido essa mulher, com o "rosto parecido com o teu, que conhecia a tua vida, os teus demônios, os teus feitos". ela me disse: "go to him, stay with him if you can, but be prepared to bleed". ela sabia que os relacionamentos do filho dela nunca passavam dos três meses (os meus também não). o que eu estava achando? desde o início eu já tinha me enrolado, já estava sangrando, mas nunca deixava isso transparecer. porque se eu sinalizasse o quanto aquela paixão estava me consumindo... ele ia embora. eu não disse. e ele foi. fiquei com o blue. fui para o norte.
é, joni, canções são como tatuagens. agora finalmente entendo: "crown and anchor me or let me sail away". meio-termo não dá. ele sempre me deixara navegar. e eu já naveguei tanto, ai...
de modo que a única coisa que fazia sentido era a vida que eu tinha vivido, brevemente, junto da "vida que poderia ter sido e que não foi". e tudo o que eu queria era um "rio em que eu pudesse patinar pra longe".
o rio em que não neva, "fica bem verdinho", estava aqui: uns 40 graus acima da temperatura do gelo pra patinar. eu chorava porque eu sabia que depois eu ia rir, até que eu chorasse de novo - e dava um desespero de essa inconclusividade levar inexoravelmente ao mesmo ciclo vicioso. o que queria dizer: eu ia chorar, de novo, de novo, de novo, e querer fugir.
estava de viagem marcada para o gelo, pra passear beira-rios congelados. numa dessas manhãs de confusão - é horrível, toda vez, acordar, nessas épocas em que o sonho te dá perspectivas muito melhores do que a realidade -, engolido um café, encontrei no suplemento cultural do jornal um artigo sobre blue, que é, nomeadamente, o objeto desse texto. o jornalista qualificava o álbum de joni "triste pra chuchu", e a verdade era: não há disco que entenda mais fundamente a solidão do que blue. "the bed is too big/the frying pan is too wide". "if you want me i'll be in the bar". "only a dark cocoon before i get my goooooorgeous wings and fly away". "we don't need a piece of paper from the city hall keeping us tied and true, you know".
do you see
do you see
do you see
how you hurt me, baby?
so i hurt you too
and we both get so blue
eu tinha feito isso, perdido "o best baby that i'd ever had" (e não era o best baby, que besteira isso!), ainda querendo beber caixas e caixas do néctar agridoce daquela pessoa, embora nosso término tivesse sido horrível: eu quis magoar pra me vingar, mas sabia que essa não era a resposta, sabia que eu não podia reagir, eu tinha passado por uma educação estoica poucos meses antes, um mergulho na autoconsciência que ia mudar minha prática pro resto da minha vida. não devia reagir jogando gasolina no fogo da dor que ele tinha me causado. e era principalmente esse silêncio, minha impossibilidade de ser honesta e em contato com o que eu realmente sentia, eram os vinte mil eu-te-amos engasgados... era isso que prejudicava só a mim - infelizmente -, de modo que derramar tudo isso, explodir maldosamente na cara dele todo o mal que eu mesma me causei só ia me trazer sofrimento. era isso que eu não entendia. a partir de como eu agia, silenciando, posso até pensar que eu entendia: não causava mal a ele. mas não compreendia como essa atitude era maléfica pra mim, me deteriorava, me aniquilava, me dissolvia.
a mãe dele me avisou. eu tinha conhecido essa mulher, com o "rosto parecido com o teu, que conhecia a tua vida, os teus demônios, os teus feitos". ela me disse: "go to him, stay with him if you can, but be prepared to bleed". ela sabia que os relacionamentos do filho dela nunca passavam dos três meses (os meus também não). o que eu estava achando? desde o início eu já tinha me enrolado, já estava sangrando, mas nunca deixava isso transparecer. porque se eu sinalizasse o quanto aquela paixão estava me consumindo... ele ia embora. eu não disse. e ele foi. fiquei com o blue. fui para o norte.
é, joni, canções são como tatuagens. agora finalmente entendo: "crown and anchor me or let me sail away". meio-termo não dá. ele sempre me deixara navegar. e eu já naveguei tanto, ai...
3 comentários:
Eu adoro a melodia e a dicção de:
'Reading Rolling Stone,
reading Vogue'
Parece uma criança contando, falando mesmo, '(mãe,) tinha um monte de gente bonita lendo Rolling Stone, lendo Vogue'.
E é ótimo achar um disco em que a gente se projete também, mas ninguém tem noção - e parece ser impossível explicar - da sensação disso
hehe. e o e-mail que eu mandei pros aparecidos do meu aniversário foi...? there were lots of pretty people there.
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