de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

23.3.11

outro dia peguei bem o comecinho do filme henry & june, cujo livro li há seis anos, no início da minha empreitada lésbica. já é um big win ter stravinsky nos créditos iniciais.

mas não consegui ver muito: tinha que tomar banho pra lavar o cabelo pra desligar o secador antes da meia-noite. não consegui nem lavar o cabelo. voltei pra ver o filme, mas - depois de ter acordado às 6:30 da manhã pra pegar conferência sobre outra womyn writer - não assisti nem meia hora.

(depois desse parágrafo cheio de nãos, conto: desci pro meu cafofo - moro no porão [cave, como dizem aqui] da casa da minha cunhada - e uma súbita insônia bateu em mim.)

soube que um amigo meu, da faculdade, de convivências na casa da minha orientadora, tinha sido preso no meio de um protesto contra a presença de barack obama no brasil. "amigos presos, amigos sumindo assim" me veio à cabeça imediatamente - eu me dando conta de que o brasil nunca saiu de estado de exceção. por mais que raramente concorde com a plataforma do pstu, corcordo menos ainda com um estado/uma polícia que prende manifestantes, aparentemente, por seus ideais políticos. me lembrei, numa segunda leitura de hd, de "biografia", da sophia:

tive amigos que morriam, amigos que partiam
outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
odiei o que era fácil
procurei-me na luz, no mar, no vento.

e morri de culpa por ter votado na dilma, ela também presa política, como pôde deixar isso acontecer no início do seu mandato? como pôde se submeter assim aos desmandes ianques? que faria eu no seu lugar? no da dilma, no do gabriel?

depois de terem sido mandados pra bangu 8, gabriel e os outros manifestantes homens tiveram suas cabeças raspadas, como gil e caetano nos anos 60. as mulheres foram pra água santa (nome irônico pra um bairro que acomoda um presídio), especificamente uma empregada doméstica e uma senhora de 69 anos.

agora eles já foram soltos, depois que obama went home e que a justiça - tardia e falha - interveio sem explicar o que afinal causou esse desastre, quem atirou o coquetel molotov. o que pude fazer eu, nessa distância, com esse contexto repressivo? procurar a mim mesma na luz, no mar, no vento, em tudo o que é livre e nasceu pra sê-lo.

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