de sofrer e amar, a gente não se desfaz.

14.6.11

Num dia de chuva todos nós queremos ser escritores. Nós nos esparramamos num divã qual fosse um consultório de psicologia numa varanda, para que se observe com a verve exata o esparramar de gotas até o chão. Com a velocidade e o vigor com que caem os pingos esperamos que as palavras se orquestrem certeiras, e que consigamos espancar com tal fulgor o teclado que o barulho das letras se enfileirando no papel justo e branco consiga ser ouvido por cima do som do líquido indo de encontro ao sólido.

As águas, não importando se estão em movimento oblíquo, vertical ou horizontal fazem o mesmo som da radiofonia. É porque estou longe, de frente para uma mata que me encobre ambas praias e rios, que ouço – na chuva – o correr do rio e o vagar das ondas. E por causa do vento que me encharca preciso pensar que nem os antigos antes que o céu desabe, sob o risco de molhar todo o meu trabalho e não poder mais ser um escritor cuja obra sobreviveu ao dia de chuva.

Similarmente ao desejo de ser escritor enquanto o dia está inspirador pra se afogar nas palavras, os dias de tempestade servem para que os leitores leiam os textos adequados à situação: uma poltrona, um abajur de um metro e meio pendendo para cima do móvel, para que num fim de tarde, a luz amarelada da lâmpada possa servir ao degustador das letras no seu roupão. Enquanto acende o cachimbo, o leitor encarna uma espécie de homem de negócios do século XIX com tempo para ler romances. No tempo em que ler romances não era coisa que se delegava às figuras femininas – bem pelo contrário – e os homens não passavam mais que as horas de trabalho na frente das máquinas.

Num dia de chuva cabe sempre uma outra personagem além do escritor e do leitor com o roupão e o cachimbo: a mocinha dos devaneios. Ela suspira – naturalmente ou com o artifício de artigos de fumo – enquanto olha pela janela o janeiro escorrendo no vidro. Pensa no seu herói amante, que nunca há de reencontrar – ou que na verdade ainda não encontrou senão nas páginas dos poemas. Na época em que as mocinhas podiam ler poemas e não sonhavam ainda com os galãs das telenovelas. Assim que anoitece ou a chuva estia, a mocinha se esquece do homem – que na verdade continua estirado na sua poltrona divã lendo qualquer baboseira da ordem do dia – e vai coser um bordado até a hora de jantar.

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