e onde mais senão numa pista artificial, aterrada, onde convivem mulas, carroças e automóveis gigantescos que transportam de uma a cem pessoas, poderia encontrá-lo? naquele ar de apocalipse, o homem de carga poetava barrosianamente enquanto eu e o coletivo o acompanhávamos, lado a lado a seus galopes. no último assento claustrofóbico, no ônibus lotado, a criatura humana mais bonita do mundo. era um homem totalmente possível, também, nada daqueles que estampam revistas pornográficas e anúncios de leite em pó (ou mesmo propagandas pró-sexo seguro). um homem que era de todos os sexos, um coma entre todas as nuances de gênero, e nenhum. um homem que mais parecia uma mistura de vênus de milo e monalisa e hermes e adriano... um ser que continha todas as etnias, em nenhuma - um modernista o sintetizaria, antropofagicamente, como brasileiro, mas se não tinha raça e as tinha todas, como ter uma só nacionalidade? seus cabelos longos cobririam seu sexo, se não o fizessem as roupas e ele não os tivesse presos. o rosto, a um tempo oval e alongado, terminava nítido no queixo coberto por um barba rente. tinha o formato de uma cabeça oriental. o contorno dos olhos indígenas pendia, nas bordas externas, para baixo. a cor de sua íris era ambrosia. a boca era mais velha, já tinha uns 50 anos, essa boca que já deve ter beijado com paixão, mas nunca a mim. ela não era um excesso de carne, voluptuosa, como essas que se desejam por aí, tampouco era ela uma boca fina e gelada, de elfos e ninfas e anjos inatingíveis. a boca era média, e era sábia. mais sábia que os dentes que resguardava. abrindo-se a boca, desvelando-se os dentes, brotava um sorriso de alguém que acha graça de uma perversidade à beira da obsessão. minha obsessão. olhá-la e pedir, de novo, de novo, sorria, só pra eu ver e fotografar atrás do pensamento esse sorriso que eu imaginava ganhar em resposta à minha abordagem: queria que você soubesse que você é a pessoa mais bela que eu já vi. passaria horas te olhando, como se você fosse um quadro. levantei e saí da trans-moção em um lugar mais real, mais orgânico, embora ainda anacrônico.
(comi churros, ápice da apologia sexual, uma fritura cilíndrica, com líquido viscoso dentro, que culmina em si todos os nutrientes de que não se deve abusar. me senti fumando um cigarro pós-coital)
(comi churros, ápice da apologia sexual, uma fritura cilíndrica, com líquido viscoso dentro, que culmina em si todos os nutrientes de que não se deve abusar. me senti fumando um cigarro pós-coital)
2 comentários:
e ele te inspirou, horrores.
viva os pos-modernos!
HAHAHAAHAHAHAHAHAH gnt, adorei isso.
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