Tava aqui lendo um texto da Elizabeth de Vasconcellos e me deparei com um poema da Sophia, aquele do
(livro sexto, 1972, p.45)
e achei que particularmente a última estrofe dialogava com Passos da Cruz, do Fernando Pessoa hortônimo, aquele soneto IV, que diz:
Porque vestir-se com gestos de outrem (o que não se pode capturar, de qualquer modo, como se viu no último poema) já é viver em pleno vento, se abrir ao desconhecido, talvez... não ter definição pra nada. Talvez caminhar, pacificamente, no deserto do mundo (sendo vento - e este é o desafio). E tudo isso depois de "ela" ter se despido de tudo o que era, de todo o medo, de todas as camadas de máscaras e personalidades anteriores. "Ela" fez isso justamente para perder o medo e se lançar na eterna busca do desconhecido, do amor, na busca pela verdade.
De repente a imagem da pérola redonda pode significar duas coisas:
Primeiro que, conjugando-se com as instâncias segredo, noite, silêncio e minha imagem, o oriente da pérola também é um mistério, algo que não se vê, o velado.
Mas, depois de pensar, o que faz mais sentido, agora, seguindo a regência da forma deixei, o poema diz que "ela" deixou a pérola redonda (o contrário da pérola barroca, que deu origem a palavra "barroco"), alguma coisa límpida, sem falhas, que se pode ver e sentir por inteiro, sem ter obscuridade, defeito. Então tudo isto - reino, segredo, noite, silêncio, vida, imagem (significando sua auto-imagem, como ela se coloca no mundo; pensando naquela história do nosso próprio rosto - que é o que os outros mais vêem da gente - o que mais mostramos a eles -, e o que menos vemos de nós mesmos), paraíso - é o que "ela" deixou para se lançar na procura, na tensão do homem adiante de si mesmo.
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
(livro sexto, 1972, p.45)
e achei que particularmente a última estrofe dialogava com Passos da Cruz, do Fernando Pessoa hortônimo, aquele soneto IV, que diz:
Ó, tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse p'los desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra - reis cristãos
Ajoelhando, inimigos, e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e embaixo, negros, os juncais
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo, e que perdê-lo... E o sonho é o resto...
Porque vestir-se com gestos de outrem (o que não se pode capturar, de qualquer modo, como se viu no último poema) já é viver em pleno vento, se abrir ao desconhecido, talvez... não ter definição pra nada. Talvez caminhar, pacificamente, no deserto do mundo (sendo vento - e este é o desafio). E tudo isso depois de "ela" ter se despido de tudo o que era, de todo o medo, de todas as camadas de máscaras e personalidades anteriores. "Ela" fez isso justamente para perder o medo e se lançar na eterna busca do desconhecido, do amor, na busca pela verdade.
De repente a imagem da pérola redonda pode significar duas coisas:
Primeiro que, conjugando-se com as instâncias segredo, noite, silêncio e minha imagem, o oriente da pérola também é um mistério, algo que não se vê, o velado.
Mas, depois de pensar, o que faz mais sentido, agora, seguindo a regência da forma deixei, o poema diz que "ela" deixou a pérola redonda (o contrário da pérola barroca, que deu origem a palavra "barroco"), alguma coisa límpida, sem falhas, que se pode ver e sentir por inteiro, sem ter obscuridade, defeito. Então tudo isto - reino, segredo, noite, silêncio, vida, imagem (significando sua auto-imagem, como ela se coloca no mundo; pensando naquela história do nosso próprio rosto - que é o que os outros mais vêem da gente - o que mais mostramos a eles -, e o que menos vemos de nós mesmos), paraíso - é o que "ela" deixou para se lançar na procura, na tensão do homem adiante de si mesmo.
3 comentários:
1) Para começo de história: eu confesso que fiquei em semi-estado de doença mental ao ler esse poema. O que vc chama de "Ela" na verdade sou sou eu.
2) Também me chamou atenção a questão da perola. Concordo mais com a segunda imagem. Ela me remete a algo mais límpido, claro do que algo obscuro. Mas talvez seja um claro-protetor, que forma uma capsula. Interessante, que na penultima estrofe ela está sem espelho e nua. Talvez essa perola que ela deixou fosse algo como um espelho que a vestia. Como se ver o próprio corpo, fosse protegê-lo de alguma forma. Chamou atenção tb o fato de só ter um possessivo de terceira pessoa na estrofe toda, ao lado de um monte de "minha", "meus", surge de lá um "SEU oriente."
3) confesso que não vi o dialogo que vc apontou com o texto do pessoa.
4) TEM COMO VC MANDAR TUUUDO PRA MIM, POR FAVOR?
5) OBRIGADO pelo privilégio de ler esse poema.
quanto ao meu texto, sobre arte contemp. : nao disse q a arte nao deva imitar a vida. A questã é que o povo qer seguir o q marx pedia: aproximar taaanto a arte da vida, que essa se torne desnecessaria. Ou seja, os artistas transformam a arte em vida, fazendo uma aproximação tao esdruxula que um quadro pode ser substituido por um gesto.
O lance de tudo não é fazer da ARTE a VIDA. mas perceber que a arte é sobretudo a representação desta. e não há nada mais mágico do que algo que não sendo a vida, sendo símbolo, consiga produzir efeitos de sentido do viver.
bom, mas tua amizade é que foi um achado. è impressionante essa coisa de encontrar as pessoas espalhadas na multidao, nao eh mesmo minha gente?
ps: ainda sobre o poema da sophia: ele me lembrou DEMAIS o romance "uma aprendizagem ou livro dos prazeres", da tia clarice.
A mim lembrou o G.H.
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