por teus olhos negros, negros,peguei a citação clariana favorita de rafa para dizer que em matéria de saudades e dor do amor ardente os portugueses são mestres. eis que hoje, dia de dilúvio no rio de janeiro (e de que mais fala a internet brasileira?), em que da janela vejo cena parecida com as nevascas inacreditáveis do canadá, resolvo procurar em camões o que antes era ba-ta-ta encontrar no vinicius. epigrafei o post com o garrett, mas logo volto ao Poeta maior.
trago eu negro o coração,
de tanto pedir-lhe amores...
e eles a dizer que não.
e mais não quero outros olhos,
negros, negros como são;
que os azuis dão muita esp'rança,
mas fiar-me neles, não.
só negros, negros os quero;
que, em lhes chegando a paixão,
se um dia disserem sim...
nunca mais dizem que não.
(almeida garrett)
veja, minha vida:
erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que pera mim bastava amor sòmente.
tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
errei todo o discurso dos meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
de amor não vi senão breves enganos.
(...)
tão verdade.
diz ele no canto V dos lusíadas:
Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
Já que a minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
que te custava? já não sei o que amo: "o amador", "a coisa amada" ou o desejo. não precisamos do amor real, já que:
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
diz sophia de mello breyner sobre o poeta:
A poesia de amor de Camões é escrita dentro de uma tradição de poesia do amor impossível, que vem quase até aos nossos dias.
Na maioria dos seus poemas líricos corre esse longo pranto do amor inacessível. Num mundo de madrugadas e névoas, de separações, de ausências e de naufrágios, passam os rostos das amadas mortas, distantes, negadas, inatingíveis, afogadas no Índico.
(grifos meus)
diz sophia, ainda: "Camões resiste e, porque resiste, sofre, vê e denuncia essa desatenção, essa surdez asfixiante". embora estivesse falando especificamente de portugal, isso pode - muito bem - servir ao amor, também. a gente resiste, "a gente vai contra a corrente/ até não poder resistir". a gente resiste em chamar essa indiferença - esse olhar blasé, essa desatenção e desprezo em relação ao amor - de vitória nossa de cada dia.
por isso minha sereia cinda gonda sempre diz: o bom é amar o amor! porque se você ama um objeto e ele se vai, você fica sem amar. agora, se você ama o amor, está sempre amando. acho que por isso as pessoas me acham tão perdida, tão destinada a sofrer de amor pra sempre. e que assim seja, amém.
por isso minha sereia cinda gonda sempre diz: o bom é amar o amor! porque se você ama um objeto e ele se vai, você fica sem amar. agora, se você ama o amor, está sempre amando. acho que por isso as pessoas me acham tão perdida, tão destinada a sofrer de amor pra sempre. e que assim seja, amém.
2 comentários:
"o bom é amar o amor, porque se você ama um objeto e ele se vai, você fica sem amar."
comofas?
Adorei 'de separações, de ausências e de naufrágios'
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